Diário de Curitiba

Paraná: melhor educação do Brasil! Será?

Foto: Ilustração/Agência Brasil

Na primeira semana do mês de fevereiro a Secretaria de Educação do Estado do Paraná lançou edital de convocação de professores que participaram do PSS 2022/2023. Tenho de confessar a vocês que fui à distribuição bem animado, não tanto pelo salário de professor (R$ 21,00 por hora/aula), mas por retornar à rede pública de ensino em seu “melhor” momento, uma vez que nosso Governador tem repetido com veemência que o Estado do Paraná tem a melhor educação do Brasil.

Bastaram alguns minutos durante o processo de distribuição de aulas para vir à tona os mesmos sentimentos que me levaram a pedir exoneração do meu padrão 10 anos atrás. O desrespeito aos professores continua expresso nos processos administrativos, na burocracia excessivamente inútil, no descaso com a classe em vários sentidos.

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Mesmo tendo um diploma de doutor pela UFPR (além de um mestrado, duas especializações e duas graduações), e tendo ficado em primeiro lugar no PSS nas regionais Pinheirinho e Portão, me senti sendo tratado como um “criminoso” que estava ocupando um lugar que não era meu por direito, sendo tratado com desconfiança e desdém. Não falo dos meus pares, profissionais que apenas cumprem ordens e são punidos por não seguirem à risca o que é solicitado, mas falo dos processos institucionalizados que começou com um edital de mais de 230 páginas, infinitas retificações que mudaram as regras do jogo ao longo do percurso e terminou com uma convocação ineficiente e desrespeitosa.

O fato de eu estar em primeiro lugar no processo me colocou em uma “posição privilegiada” em relação aos demais da categoria. Mesmo assim, para fechar o padrão de 20h/a eu precisaria estar me deslocando para 4 escolas, ministrando 3 disciplinas diferentes (ensino religioso, filosofia e aprendendo a empreender), em 12 turmas distintas. Tudo isso para ganhar uma bagatela de aproximadamente R$ 1.800,00 de salário base, menos os descontos devidos.

Você aceitaria trabalhar nessas condições e com esse retorno financeiro depois de mais de 18 anos de formação acadêmica?

Esse experimento social me fez chegar à seguinte conclusão: estamos desperdiçando nossos melhores recursos de tempo, talento e capital humano.

Se o professional da educação é tratado assim naquela que está sendo divulgada como a “melhor educação do país”, não quero nem imaginar o que acontece nos demais Estados do Brasil.

Enquanto professores continuarem sendo tratados com desconfiança e desrespeito, com baixos salários e péssimas condições, não haverá mudança significativa na sociedade. Não me refiro aqui às mudanças culturais apenas, mas econômicas.

É essa conclusão que os pesquisadores da Escola de Economia da FGV ressaltaram em pesquisa recente, atestando que o baixo investimento em educação interfere diretamente no Produto Interno Bruto (PIB) do país, chegando a afirmar que o Brasil deixa de ganhar 2 pontos porcentuais a cada ano: “A educação é condição necessária para o crescimento sustentável, para um ciclo virtuoso. Não é só que o país produz mais, há melhora da vida das pessoas, em saúde, com menos criminalidade, salários mais altos, inovação, participação política”, diz o professor da FGV, André Portela.

Nesse sentido, falar de taxa de juros e reforma tributária são importantes, mas não tanto quanto falar da necessidade de uma verdadeira reforma educacional que priorize nossos profissionais da educação.

Se quisermos melhorar realmente a vida das pessoas, a economia do país, diminuir a criminalidade, fomentar a participação política e crescermos de modo sustentável, precisamos começar da base que é a educação.

E não é tratando os professores como o Estado do Paraná tem tratado que a coisa vai melhorar. Não adianta fazer maquiagem nos números, a conta vai chegar cedo ou tarde.

E essa é uma conta simples de se fazer: tratar os professores e demais profissionais da área da educação com desconfiança e desrespeito, colocando-os em condições de trabalho insalubres e salários vergonhosos, não vai promover o impacto que se espera na sociedade, mas apenas protelar uma tragédia anunciada.

Mais do que olhar para taxas de juros e o lado econômico da sociedade, é preciso zelar pelo capital humano, pois esse sim produz impactos duradouros, seja para o bem ou para o mal. Cada ano que focamos nossas discussões mais na economia do que em um real e verdadeiro investimento em educação, perdemos uma riqueza imensa no futuro.

Se realmente priorizássemos uma educação eficiente, veríamos nosso PIB aumentar em até 28%, segundo pesquisas. Países que investiram pesado em Educação nas últimas décadas tiveram um crescimento exponencial no PIB. Basta ver exemplos como Cingapura, Coréia do Sul, Portugal e Polônia. Esses são países que apresentaram notas acima da média em sistemas de avaliação como o PISA. É uma relação inevitável e diretamente proporcional: se aumentar a qualidade da educação, o PIB cresce.

No entanto, o que prevalece sempre nas discussões constituem apenas a ponta do iceberg, uma ponta pequena, mas que tem monopolizado toda a atenção, energia e orçamento. Enquanto isso, quem não resolve seus problemas de maneira profunda, vende uma boa maquiagem feita apenas para aparentar um iceberg menos desastroso do que é realmente.

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