As pequenas chances
Natalia Timerman
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As pequenas chances é um romance de extraordinária beleza, uma indagação cortante sobre família, lembrança, judaísmo, vida e morte. Natalia Timerman segue a trilha de autores como Karl Ove Knausgård e Annie Ernaux ao criar um poderoso retrato do luto e do amor.
Enquanto aguarda um voo, Natalia encontra o médico de cuidados paliativos que atendeu seu pai, Artur. A conversa desperta nela toda a experiência da perda, ainda próxima e repleta de cicatrizes. Artur era médico, então a notícia da volta do câncer vem seguida da certeza da finitude. A morte vira um assunto de família, e acompanhamos com rara delicadeza não apenas o seu declínio físico, mas seus efeitos na vida dos filhos, da esposa e dos netos. À narradora cabe reconstruir todo esse caminho que, embora dramático, vem carregado pela ternura da memória.
Se o fim é inevitável, à narradora cabe reconstruir todo esse caminho que, embora dramático, vem carregado de ternura. Em meio à tristeza, Natalia traz à luz os pequenos gestos, os acontecimentos insignificantes que, vistos pela lente do tempo, formam um retrato belo e doloroso da relação de uma filha com o pai. Enquanto isso, a irmã de Natalia, que trabalha numa plataforma em alto-mar, luta contra o tempo para conseguir despedir-se de Artur.
E é justamente o tempo um dos grandes eixos de As pequenas chances. Com a morte servindo de marca para o fim, Natalia volta então ao começo, às origens familiares, e ao lado dos filhos e do marido viaja à Ucrânia em busca do tênue fio que a liga aos antepassados e ao próprio pai.
Natalia Timerman nasceu em 1981, em São Paulo. É médica psiquiatra pela Unifesp, mestre em psicologia e doutoranda em literatura pela USP. Publicou Desterros: Histórias de um hospital-prisão (Elefante, 2017) e a coletânea de contos Rachaduras (Quelônio, 2019), finalista do prêmio Jabuti. Pela Todavia, publicou o romance Copo vazio (2021).
Jardim Botânico
Nuno Ramos
“Não faço poemas, faço desenhos/ com os dentes, mordendo o papel.” Aí exemplificado, o ardor visceral com que Nuno Ramos se atira ao ato regenerador de escrever. Jardim Botânico é uma escavação em si mesmo, um solilóquio corajoso em que o poeta se embrenha a questionar-se sobre o valor e o sentido de suas próprias vivências. O que ele busca, ao que parece, é atingir o ponto mais profundo, o extremo limite de sua autenticidade como criador e pessoa.
“Ser ou não ser, eis a questão” é o primeiro verso do mais famoso solilóquio da literatura ocidental, o de Hamlet, que retorna de quando em quando à cena em palcos de todo o mundo e bem poderia ser tomado por equivalente do “Como caber na vida que se tinha/ se tinha antes de quê?” deste artista brasileiro polivalente e aplaudido que ora se desnuda em seus versos.
Ao longo da história da arte, muitos artistas plásticos de renome, de um Michelangelo a um Portinari, também se dedicaram a escrever poesia, assim como em diferentes países muitos escritores brilhantes, de um D. H. Lawrence a um Lúcio Cardoso, praticaram a pintura e expuseram seus quadros. Se Nuno Ramos, em termos históricos, dá seguimento a essa tradição, dela entretanto se distancia ao mostrar que para ele a criatividade plástica e a inventividade na escrita estão no mesmo patamar de igualdade, sempre a esbanjar talento.
Nuno Ramos nasceu em São Paulo, em 1960. Artista plástico, ficcionista, ensaísta e poeta multipremiado, é autor de diversos livros, entre eles Verifique se o mesmo e Fooquedeu, ambos publicados pela Todavia.
Era apenas um presente para o meu irmão: a Barbárie de Queimadas
Bruno Ribeiro
“Barbárie de Queimadas” é como ficou conhecido o crime de estupro que tirou a vida de duas mulheres em Queimadas, uma pequena cidade da Paraíba, em fevereiro de 2012. Para recontar essa história, Bruno Ribeiro, vencedor do prêmio Todavia de Não Ficção, entrevistou mais de cem pessoas, numa tentativa de reconstruir o crime e entender suas consequências. Era apenas um presente para o meu irmão convida a uma reflexão sobre o que somos e para onde vamos enquanto sociedade.
Costuma-se dizer que uma boa história deve ter um ponto, mas a melhor tem muitos. E a obra de Ribeiro — que entrevistou mais de cem pessoas para o trabalho — é a prova disso. Ao longo do detalhado relato, pode-se vislumbrar com clareza a intrincada teia de cumplicidade que protege os criminosos, assim como a raiz da resiliência que ainda sustenta os vitimados. Ali, vê-se o pacato povoado, cuja aridez esperançada convive com a crueldade adormecida. Também a comunidade que sobrevive num tecido social corroído pelo descaso, pela desigualdade e pela violência atávica. As relações de poder, a moralidade, a corrupção, o lugar do homem e o da mulher e, sobretudo, os efeitos asfixiantes da ausência do Estado. Na terra de Marlboro, a impunidade impera.
Como em um Dogville do agreste com cenas de Laranja Mecânica, o livro disseca personagens que parecem fadados a carregar para sempre as cicatrizes de uma realidade impiedosa — cada um à sua maneira. Era apenas um presente para o meu irmão convida a uma reflexão desconcertante sobre o que somos e para onde vamos enquanto sociedade a partir de relatos pungentes e brutais de um Brasil real que parece ser irreparável.
Bruno Ribeiro é escritor, tradutor e roteirista. Mestre em escrita criativa pela Universidad de Tres de Febrero, em Buenos Aires, é autor de Glitter (Moinhos, 2019), Como usar um pesadelo (Caos e Letras, 2020) e Porco de raça (Darkside Books, 2021), entre outros. Recebeu os prêmios Brasil em Prosa, Machado DarkSide, Todavia de Não Ficção e foi finalista do Jabuti.
Um cão no meio do caminho
Isabela Figueiredo
Este é um romance poderoso sobre o encontro de duas personagens cuja amizade nasce a partir da solidão profunda em uma sociedade habituada ao desperdício. Num estilo vívido e que esbanja empatia, característico de seus livros, a portuguesa Isabela Figueiredo — um dos nomes mais destacados da literatura lusófona contemporânea — faz neste Um cão no meio do caminho um estudo da solidão e de como nos habituamos a descartar tudo em nossas vidas, até mesmo nossos amores.
José Viriato, o protagonista deste romance de Isabela Figueiredo, fez algumas opções na vida. Não quis dar prosseguimento aos estudos universitários, embora venha de uma família esclarecida. Recusa-se a comer carne. Vive só, tendo apenas a companhia de cães. E enveredou para uma atividade que o faz quase invisível, mas essencial no capitalismo tardio: recolhe os despojos da nossa sociedade de consumo, objetos, móveis, roupas, livros e outras coisas que vão para o lixo nas grandes cidades. É seu meio de subsistência. E sua forma muito particular de encarar os ciclos da vida.
A rotina minuciosamente construída entre as ruas de Lisboa e seu pequeno apartamento na periferia da cidade é modificada quando José trava contato com Beatriz, uma vizinha de prédio cuja presença discreta dá o que falar e suscita todo um folclore sombrio em torno de sua história pessoal, a ponto de ser apelidada de “Matadora”. O encontro dessas duas pessoas profundamente marcadas pela solidão vai transformar seus mundos para sempre.
Num estilo vívido e que esbanja empatia, característico de seus livros Caderno de memórias coloniais e A gorda, a portuguesa Isabela Figueiredo — um dos nomes mais relevantes da literatura lusófona contemporânea — faz neste Um cão no meio do caminho um estudo da solidão e de como nos habituamos a descartar tudo em nossas vidas, até mesmo nossos amores. Com passados obscuros e memórias muitas vezes doloridas, as vidas de José Viriato e Beatriz são apresentadas de forma comovente e poderosa neste romance que fala de afetos e restos, de humanos e cães. E da nossa busca por não nos sentirmos tão sós no mundo.
Isabela Figueiredo nasceu em 1963 em Lourenço Marques (atual Maputo), Moçambique, mudando-se para Portugal em 1975. Professora e escritora, é uma das mais destacadas vozes da literatura portuguesa contemporânea. É autora de Caderno de memórias coloniais e A gorda, ambos publicados pela Todavia.
O que é ser uma escritora negra hoje, de acordo comigo
Djaimilia Pereira de Almeida
Com dolorosa consciência, Djaimilia Pereira de Almeida reflete sobre seu lugar numa cena em que traços de gênero e raça são saudados com efusão, mas muitas vezes de forma superficial, quase publicitária, escamoteando o caráter ora movediço e, portanto, profundamente instável, de ser uma mulher que escreve. Uma mulher negra que escreve. Este ensaio é uma reflexão tão arguta quanto combativa. Uma meditação sobre raça e cultura na vida contemporânea.
No texto que dá título ao volume, a autora mescla ensaio cultural e pessoal para entender seu espaço no mundo como uma das grandes escritoras da atualidade. Fosse há cinquenta anos, ela estaria onde está, sendo premiada e traduzida mundo afora? A pergunta não é fora de propósito nem dada a questionamentos mais ligeiros.
Nascida em Luanda, em 1982, Djaimilia Pereira de Almeida é autora de, entre outros, Esse cabelo e A visão das plantas (Prêmio Oceanos 2020), publicados no Brasil pela Todavia.
Confrontando o Leviatã
David Runciman
Misturando reflexões em tom narrativo a referências literárias, David Runciman apresenta de forma clara e acessível algumas das ideias mais fundamentais da filosofia política — de Thomas Hobbes a Hannah Arendt, da revolução à pandemia e à crise climática. Produto da trajetória de sucesso do podcast History of Ideas, Runciman apresenta uma história do pensamento político moderno que nos ajuda a compreender os acontecimentos e as crises de hoje.
Ao mesmo tempo que são postos em diálogo o precursor do debate antirracista Frantz Fanon e um George Orwell atento às questões do colonialismo, ou algumas das mais célebres investidas teóricas acerca da utopia e das ficções que projetaram cenários distópicos, aqui figuram também associações menos esperadas entre pensadores políticos e ficcionistas visionários: Ghandi ao lado do E. M. Forster de A máquina parou; Mary Shelley e seu Frankenstein diante do pensamento feminista pioneiro de sua mãe, Mary Wollstonecraft. No entanto, é sempre em uma espécie de diálogo com outro seminal personagem-autômato da literatura de língua inglesa, o próprio Leviatã, que Runciman supera as costumeiras oposições simplistas para abordar conceitos profundamente políticos — é tão importante falar de desigualdade e liberdade quanto de prazer e hipocrisia.
A história geral não se caracteriza como uma grande narrativa, o que também vale para campos mais específicos da “ciência” histórica, como o das ideias políticas. Por outro lado, toda ideia política exige uma narrativa que a sustente, e esse talvez seja o grande atrativo do roteiro aqui proposto pelo autor, que se define menos como politólogo do que como historiador. À medida que explora a vida e a obra dos doze pensadores retratados neste livro, Runciman também se lança às questões prementes do debate público contemporâneo.
David Runciman e? professor de política na Universidade de Cambridge e editor convidado da London Review of Books. Apresentou o podcast Talking Politics e atualmente comanda Past Present Future, com episódios semanais sobre política, filosofia, cultura e tecnologia. Dele, a Todavia publicou Como a democracia chega ao fim (2018).
Rosshalde
Hermann Hesse
Publicado em 1914, e com evidente teor autobiográfico, este é o quarto romance de Hermann Hesse. Por meio do microcosmo de Rosshalde, Hesse expõe a falência dos ideais de casamento da classe média e formula uma questão universal: existe, enfim, equilíbrio possível entre uma vida em conformidade com as expectativas sociais e uma que honre sonhos de liberdade?
Rosshalde é o nome da opulenta propriedade da família Veraguth. Uma imensa morada, rodeada de natureza, em que nada ou quase nada parece faltar. A realidade, no entanto, é bastante diferente. O proprietário, Johann Veraguth, é um pintor bem-sucedido e se vê dividido entre as demandas de um casamento monótono e seus ideais artísticos e criativos. O filho mais novo, Pierre, é o único motivo que o conecta à mulher, Adele — e mesmo esse vínculo é marcado pelo ciúme que sentem do menino e pela competição por seu afeto.
Em Rosshalde, o artista constrói um ateliê apartado da casa, para criar sem ser incomodado. Inicialmente, é um mero refúgio artístico. Mas, acometido de uma crise existencial, ele decide se mudar de vez para lá, livrando-se das tribulações da rotina doméstica. Enquanto isso, na residência principal, Adele e Pierre assistem ao paulatino afastamento de um homem que, por não ver mais sentido na vida que levam, se recusa a seguir fazendo parte dela.
A lassidão da existência em Rosshalde é interrompida quando Otto Burkhardt, amigo de infância do pintor, vem visitá-lo e se depara com a situação. Inconformado, ele convida o artista para uma viagem pela Índia, distante — talvez para sempre — daquele ambiente. Uma catástrofe agrava a necessidade cada vez mais urgente de mudança, levando Johann a considerar a proposta do amigo. Publicado em 1914, e com evidente teor autobiográfico, este é o quarto romance de Hermann Hesse. Nessa época, o autor (e também pintor) alemão acabara de voltar de viagem, impactado por uma crise conjugal.
Hermann Hesse nasceu em Cawl, na Alemanha, em 1877. Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1946, é autor de obras como Sidarta e Narciso e Goldmund. Morreu em 1962, na Suíça. Dele, a Todavia já publicou Knulp, Peter Camenzind e O lobo e outros contos.