A entrada em vigor dos padrões IFRS S1 e IFRS S2 no Brasil impõe às empresas um novo nível de rigor na divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade e ao clima. Mais do que um exercício de transparência, os relatórios passam a exigir integração direta entre riscos ESG (Environmental, Social and Governance – em português, Ambiental, Social e Governança), estratégia corporativa, desempenho financeiro e governança, em linha com as resoluções da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e do Banco Central.
Na prática, a implementação dos novos padrões demanda mudanças estruturais nos processos internos das organizações. Especialistas destacam que companhias que tratam o IFRS S1 e S2 apenas como uma adaptação de relatórios de sustentabilidade existentes tendem a enfrentar dificuldades, especialmente quando o relatório passa a ser obrigatório e sujeito à asseguração independente.
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Segundo Daniele Barreto e Silva, sócia de ESG da Grant Thornton Brasil, o ponto de partida deve ser estratégico. "O IFRS S1 e S2 não tratam de impacto social ou ambiental isoladamente, mas de como esses fatores afetam o valor da empresa. As organizações precisam olhar para a sustentabilidade com a mesma lógica aplicada a riscos financeiros", afirma. Para isso, a executiva lista as principais dicas para implementar o IFRS S1 e IFRS S2:
- Tratar sustentabilidade como tema financeiro: os padrões exigem que riscos e oportunidades de sustentabilidade sejam analisados sob a ótica de impacto em fluxo de caixa, custo de capital, desempenho e posição financeira. Informações sem conexão financeira clara tendem a ficar fora do escopo.
- Estruturar corretamente a materialidade financeira: diferentemente da dupla materialidade adotada na União Europeia, o IFRS foca no que pode influenciar decisões econômicas de investidores e credores. É essencial documentar critérios, premissas, análises quantitativas e qualitativas que sustentam a definição do que é material.
- Integrar riscos climáticos à gestão de riscos corporativos: riscos físicos e de transição não devem ser tratados de forma paralela. As normas exigem que esses riscos estejam incorporados ao sistema de gestão de riscos da companhia, com critérios claros de identificação, priorização, monitoramento e resposta.
- Fortalecer a governança e o papel do conselho: o conselho de administração precisa demonstrar envolvimento efetivo na supervisão de riscos e oportunidades de sustentabilidade e clima. Isso inclui agendas formais, definição de responsabilidades, acompanhamento de metas e integração do tema às decisões estratégicas.
- Preparar processos e controles para a asseguração: mesmo na fase inicial, as empresas devem estruturar processos, controles internos e evidências documentais. A falta de rastreabilidade dos dados é um dos principais gargalos para a obtenção de asseguração limitada ou razoável.
- Garantir consistência entre dados financeiros e não financeiros: as informações de sustentabilidade precisam ser coerentes com as demonstrações financeiras, planejamento estratégico e divulgações ao mercado. Inconsistências entre áreas são um risco relevante de questionamentos por reguladores e investidores.
- Começar antes da obrigatoriedade: a adoção voluntária funciona como fase de aprendizado. "Empresas que usam esse período para testar processos, identificar lacunas e ajustar governança chegam muito mais preparadas quando o reporte se torna obrigatório", destaca Daniele.
Para apoiar as organizações nesse processo, a Grant Thornton Brasil reuniu essas e outras orientações técnicas em um guia prático sobre IFRS S1 e IFRS S2, que aprofunda conceitos, traz exemplos setoriais e detalha os requisitos regulatórios aplicáveis ao mercado brasileiro.
O material serve como referência para profissionais de finanças, sustentabilidade, riscos, governança e auditoria envolvidos na implementação dos novos relatórios. "O maior desafio não é produzir o relatório, mas demonstrar que a empresa tem processos sólidos e auditáveis por trás das informações divulgadas. É isso que o mercado e os reguladores esperam a partir de agora", conclui Daniele Barreto e Silva.
