Diário de Curitiba

Livro de pesquisador radicado no Amapá lança luz sobre os desafios das comunidades ribeirinhas da Amazônia

Foto: Arquivo Pessoal

Em um país acostumado a enxergar a Amazônia por meio de estatísticas, imagens aéreas e discursos políticos, o livro Rio, Ribeirinho e Cultura propõe um caminho diferente: olhar para as pessoas.

Lançada no último dia 5 de junho, a obra do pesquisador Donizete Vaz Furlan reúne pesquisa acadêmica e experiências de campo para retratar a realidade das comunidades ribeirinhas da região Norte do Brasil, grupos que vivem às margens dos rios amazônicos e enfrentam desafios cotidianos relacionados à educação, infraestrutura, acesso a serviços públicos e reconhecimento social.

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Atualmente residente em Macapá (AP), Donizete afirma que a motivação para escrever o livro surgiu a partir de uma inquietação despertada durante suas pesquisas. “A pesquisa me revelou um Brasil de muito sofrimento”, resume.

Segundo o autor, a obra procura apresentar ao leitor uma realidade que permanece distante do imaginário de grande parte da população brasileira. Os chamados ribeirinhos — frequentemente definidos como “povos das águas” — convivem com limitações que influenciam diretamente o acesso à educação e às oportunidades de desenvolvimento.

Em muitas localidades, explica o pesquisador, o calendário escolar depende do comportamento dos rios, das marés e dos períodos de cheia. Há comunidades sem acesso regular à energia elétrica, internet ou água tratada. “É um povo muito sofrido e bastante esquecido”, afirma.

Educação e desigualdade

A pesquisa parte de uma constatação simples, mas incômoda: a educação continua sendo profundamente condicionada pelo território onde uma pessoa nasce.

Ao analisar a realidade amazônica, Donizete identifica obstáculos que vão muito além da sala de aula. Questões geográficas, climáticas e estruturais afetam diretamente o acesso ao ensino e contribuem para a manutenção de desigualdades históricas.

Mais do que registrar dificuldades, o autor busca contribuir para a formulação de soluções.

“Nosso foco é demonstrar os problemas encontrados para pensar soluções e contribuir na formação de pessoas capazes de criar políticas públicas eficazes que minimizem as dificuldades enfrentadas por essas populações.”

Pesquisa construída de forma colaborativa

O livro foi escrito no Amapá, publicado pela Editora Maya Livros e teve lançamento simbólico durante um encontro acadêmico realizado no Maranhão.

A publicação integra uma trajetória de pesquisa desenvolvida em diálogo com estudiosos de diferentes regiões do país. Ao longo dos anos, Donizete participou de trabalhos e publicações ao lado de nomes como Flávio Martins Nunes Junior, Eliane Octaviano Martins, Célia Zisman e Marcelino Guedes.

O autor também destaca a importância do GEDDMA/UFMA (Grupo de Estudos, Desenvolvimento, Modernidade e Meio Ambiente), coordenado pelo professor Horácio Antunes. O grupo reúne pesquisadores brasileiros e latino-americanos dedicados ao estudo de temas relacionados à Amazônia, desenvolvimento regional e populações tradicionais.

Segundo Donizete, o grupo teve papel importante em sua formação acadêmica. “O GEDDMA me acolheu de braços abertos”, afirma.

Democratizar o conhecimento

Uma característica que marca a atuação do pesquisador é a defesa da circulação ampla do conhecimento acadêmico.

Em vez de concentrar suas publicações apenas nos espaços tradicionais da produção científica, Donizete afirma buscar também veículos periféricos e alternativos de divulgação.

A proposta é aproximar a pesquisa das comunidades e dos leitores que normalmente permanecem distantes dos grandes centros universitários. “É uma forma de fazer a educação circular”, resume.

O Brasil além dos cartões-postais

Questionado sobre a principal mensagem que espera transmitir por meio do livro, o pesquisador oferece uma reflexão que atravessa toda a obra.

“Quero mostrar que o Brasil dos comerciais de televisão e das redes sociais é um Brasil inventado. Ainda há muito a ser feito para que as pessoas possam comer, beber e se sentir tratadas com dignidade.”

Ao colocar no centro do debate as vozes de comunidades frequentemente ignoradas pelas grandes narrativas nacionais, Rio, Ribeirinho e Cultura convida o leitor a enxergar um Brasil que existe para milhões de pessoas, mas que ainda permanece invisível para boa parte do país.

QUEM É DONIZETE VAZ FURLAN?

– Pesquisador radicado em Macapá (AP);
– Autor do livro Rio, Ribeirinho e Cultura;
– Integrante de grupos de pesquisa voltados aos estudos amazônicos;
– Atua em pesquisas sobre educação, cultura, cidadania e populações tradicionais;
– Colaborador de projetos acadêmicos desenvolvidos com pesquisadores de diferentes regiões do Brasil;
– Defensor da democratização do conhecimento e da circulação da produção científica para além dos grandes centros acadêmicos;
– Participante de iniciativas de pesquisa ligadas ao GEDDMA/UFMA.

Livro: Rio, Ribeirinho e Cultura
Editora: Editora Maya Livros
Lançamento: 5 de junho de 2026
Tema: Cultura, educação e desafios sociais das comunidades ribeirinhas da Amazônia.

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