A gestão da Secretaria Municipal da Educação de Curitiba tornou-se alvo de questionamentos após o cruzamento de dados oficiais revelar uma grave distorção entre o que está publicado no Diário Oficial e o que acontece na realidade dos corredores da prefeitura. A denúncia aponta para um possível desvio de função estratégico que turbina salários comissionados, custando centenas de milhares de reais aos cofres públicos.
No centro da controvérsia está a nomeação de Maiara Peruzzo. De acordo com o Decreto Municipal nº 487, publicado em 29 de janeiro de 2025, ela foi oficializada no cargo de Diretora do Departamento de Ensino Fundamental. Trata-se de uma função de altíssima responsabilidade técnica, classificada sob o símbolo C-2, cujo custo mensal para o município atinge a marca de R$ 23.371,92, segundo a tabela salarial vigente.
• Clique aqui agora e receba todas as principais notícias do Diário de Curitiba no seu WhatsApp!

No entanto, a atuação pública da servidora contradiz o documento assinado pelo Executivo. Em eventos, reuniões e no trato diário da pasta, Maiara é rotineiramente apresentada e atua como Chefe de Gabinete do Secretário da Educação.
A inconsistência documental esconde um problema financeiro direto: o cargo de Chefe de Gabinete (símbolo C-4) possui uma remuneração estipulada na faixa dos R$ 10 mil mensais. Ao ser nomeada em uma vaga técnica superior, a servidora recebe um acréscimo de aproximadamente R$ 13 mil a cada mês, configurando o que pode ser interpretado como o uso da estrutura pedagógica para acomodar e hipertrofiar a remuneração de uma função de articulação política.
A “Diretora do Chão de Escola”
A situação levanta uma segunda questão imediata: se a Diretora de Ensino Fundamental está, na prática, despachando no gabinete, quem está coordenando a educação básica das crianças curitibanas?
Registros públicos e relatos de servidores apontam que a verdadeira gestão do departamento recai sobre Sandra Piotto. É ela quem atua nas escolas, participa das resoluções pedagógicas e exerce a função de fato. Cria-se, assim, um cenário insólito na administração pública: uma servidora trabalha como diretora sem deter o cargo e o salário correspondentes, enquanto a titular oficial da vaga usufrui dos vencimentos atuando em outra função.
A Conta da Incoerência: Mais de R$ 190 mil
O impacto dessa manobra contábil e administrativa penaliza diretamente o orçamento que deveria ser revertido em melhorias para a rede municipal. Considerando a diferença salarial de cerca de R$ 13 mil mensais, acumulada desde janeiro de 2025 até fevereiro de 2026 (incluindo o impacto do 13º salário), o prejuízo gerado por essa única distorção pode ultrapassar a marca de R$ 196 mil.
Para o curitibano que paga seus impostos em dia e para os professores que lutam por progressões e reajustes na carreira, o valor é representativo. O montante consumido apenas pela “diferença” salarial desse arranjo de gabinete seria suficiente para custear reformas estruturais urgentes em unidades de ensino ou adquirir dezenas de milhares de kits de materiais escolares para alunos da rede pública.
O espaço permanece aberto para que a Prefeitura de Curitiba e a Secretaria Municipal da Educação apresentem os critérios técnicos que justificam a discrepância entre o Decreto nº 487 e a realidade da pasta, e expliquem aos cidadãos por que a estrutura do Ensino Fundamental tem sido utilizada desta forma.