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Ando devagar — ou andava

Quando eu tinha 16 ou 17 anos, uma amiga que vivia comigo para cima e para baixo me disse, meio irritada: “Você anda devagar demais.” Eu, com a calma de quem cresceu no interior, respondi cantando, meio rindo: “Ando devagar porque já tive pressa…” Na época, eu nem sabia direito o que aquilo significava. Era mais pose do que consciência.

Hoje, quase 20 anos depois, a frase me cobra. Porque eu já não ando devagar. Tenho pressa para tudo: para responder, para terminar, para passar para o próximo vídeo, para o próximo assunto, para o próximo dia. Viramos uma geração que vive em pedaços de 30 segundos — às vezes, de 15. E, nesse ritmo, não percebemos o que foi ficando pelo caminho.

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No fim de semana passado, tivemos um churrasco na igreja. Só homens. Nada extraordinário: carne, conversa, risadas. Mas houve um detalhe que transformou tudo: ninguém estava no celular. Ou melhor, quase ninguém — e, quando estava, parecia deslocado. De repente, algo raro aconteceu: a conversa voltou a ser conversa. Sem notificações interrompendo, sem aquele olhar que escapa para a tela no meio da fala do outro, sem a ansiedade de registrar tudo em vez de viver alguma coisa.

Ali, entre uma carne e outra, ouvi histórias que estavam ao meu lado havia anos — e que eu nunca tinha escutado. Gente que frequenta o mesmo espaço, cruza comigo, cumprimenta, mas nunca teve tempo de existir de verdade diante de mim. Porque existir, hoje, exige tempo. E tempo virou luxo.

Zygmunt Bauman dizia que vivemos tempos líquidos, em que tudo escorre rápido demais — inclusive os vínculos. Talvez por isso tenhamos aprendido a consumir pessoas como consumimos conteúdo: rápido, superficial, descartável. Mas gente não cabe em 30 segundos. Histórias não cabem. A dor não cabe. A alegria, então, muito menos.

Talvez o problema não seja a tecnologia. Ela está aí e cumpre o seu papel. O problema é quando começa a ditar o ritmo da nossa alma. Hannah Arendt falava da importância de um “mundo comum” — um espaço onde as pessoas realmente se encontram, se escutam e compartilham existência. Esse mundo não se sustenta na pressa. Ele exige presença. E presença exige tempo.

Há um trecho antigo em Eclesiastes que diz que há tempo para tudo — tempo de falar e tempo de calar, tempo de plantar e tempo de colher. Talvez o nosso erro não seja a falta de tempo, mas a incapacidade de reconhecê-lo quando ele acontece. Quando tudo precisa ser rápido, o mundo comum se desfaz: o outro vira interrupção, a conversa vira atraso, o encontro vira perda de produtividade.

Não desaprendemos a falar. Desaprendemos a permanecer. Permanecer numa conversa, num momento, num lugar sem a urgência de ir para outro. E isso cobra um preço silencioso: relações mais rasas, vínculos mais frágeis, memórias mais curtas.

Naquele churrasco, por algumas horas, o tempo desacelerou. E, curiosamente, nada ficou mais lento — ficou mais cheio. Mais cheio de gente, mais cheio de sentido, mais cheio de presença. Talvez seja isso que estamos perdendo: a capacidade de estar inteiro onde se está.

Eu, que um dia disse que andava devagar, hoje corro sem perceber. Mas, de vez em quando, a vida dá esses pequenos lembretes: sentar, ouvir, conversar… ainda funciona. E talvez seja justamente isso que esteja faltando.

Menos pressa. Mais presença.

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