Diário de Curitiba

Os rabiscos no céu e as verdades no chão

Foto: Ricardo Alcantara

Olhei para o céu esses dias. Um daqueles rabiscos longos, brancos, atravessando o azul de outono, céu quase de brigadeiro, como diriam os mais antigos. Aquela linha desenhada por um avião que passou minutos antes e deixou ali um rastro silencioso, como se alguém tivesse riscado o céu com giz. Tem nome técnico, claro, mas naquele momento isso pouco importava. O que importava era o que aquilo me lembrou: um motorista de Uber.

O motorista era um homem na casa dos 50, voz grave, conversa fácil. Daquelas que começam no clima — “nem parece Curitiba, que calor” — e, quando você percebe, já estão em outro lugar completamente diferente. O caminho foi rápido. O desvio, nem tanto. Em poucos minutos, saímos da previsão do tempo para teorias da conspiração: vacina, geopolítica, controle global, o pacote completo. Até que ele apontou para o céu e explicou, com uma convicção tranquila que não admitia dúvida: aqueles rastros eram parte de uma operação chinesa para controlar o clima. “A nova guerra é essa”, disse. Fiquei em silêncio, não por concordar, mas porque percebi que não estava diante de uma dúvida, estava diante de uma certeza. E certezas, hoje em dia, são difíceis de atravessar.

Clique aqui agora e receba todas as principais notícias do Diário de Curitiba no seu WhatsApp!

 

 

 

Por um instante, a sensação foi a de estar dentro de um episódio de Black Mirror, como se a realidade tivesse deslocado alguns centímetros sem avisar. Mas a verdade é mais desconfortável: não era ficção. Era cotidiano. E não é um caso isolado. Vivemos um tempo em que as pessoas não apenas têm opiniões diferentes; elas habitam realidades diferentes. São bolhas de informação que não se comunicam, que se reforçam mutuamente e que, pouco a pouco, se tornam impermeáveis ao mundo de fora.

Antes da internet, teorias absurdas existiam, mas eram limitadas. Dependiam de encontros físicos, de grupos pequenos, de barreiras geográficas e sociais que funcionavam como freio natural. Hoje, qualquer ideia — por mais distorcida que seja — encontra eco, comunidade e validação. E quando uma ideia encontra validação suficiente, ela deixa de parecer absurda para quem está dentro: ela vira verdade. Nos Estados Unidos, isso ganhou forma e impacto político com movimentos como QAnon; no Brasil, assumiu versões próprias, adaptadas ao nosso contexto, misturando política, religião, medo e desinformação em doses difíceis de separar.

E não se trata de um problema de um lado só. A desinformação não tem ideologia fixa, tem método. Mistura fatos com versões, recorta contextos, conecta personagens desconexos e entrega tudo como se fosse revelação. Quem recebe não sente que está sendo enganado; sente que está descobrindo algo que os outros ainda não viram. E isso é poderoso, porque o ser humano prefere se sentir iniciado do que simplesmente informado.

Outro dia, vi um vídeo que resume bem esse momento: um neto mostra ao avô um conteúdo gerado por inteligência artificial, um grilo tocando saxofone. O avô assiste, encantado, e diz que a natureza é perfeita. A cena é engraçada, mas só até certo ponto. Depois, ela revela algo mais profundo: já não estamos falando apenas de interpretação equivocada, mas de uma dificuldade crescente em distinguir o real do fabricado. Em um cenário pré-eleitoral, isso deixa de ser detalhe e passa a ser risco concreto.

A velocidade da mentira já era um problema; agora, ela ganhou ferramentas mais sofisticadas. Vídeos falsos, áudios manipulados, imagens convincentes, a desinformação deixou de ser improviso e começou a operar com método. Existe até uma estratégia conhecida: inundar o debate com tantas versões, tantas distorções e tantos ruídos que não há tempo hábil para responder a tudo. Não se trata de convencer; trata-se de cansar, saturar, confundir. No meio disso, o cidadão comum começa a duvidar até do que é evidente, ou, pior, passa a acreditar com mais facilidade no improvável do que no verificável.

Talvez esse seja o ponto mais delicado do nosso tempo. Não é que as pessoas tenham se tornado mais ignorantes; é que passaram a confiar em sistemas de informação que não foram feitos para informar, mas para engajar. E engajamento não exige verdade, exige reação. O problema, no fim das contas, não está no rabisco no céu. Está no que projetamos sobre ele.

Aquele risco branco continua sendo, muito provavelmente, apenas o rastro de um avião. Mas, para muita gente, virou evidência de algo muito maior. E quando a realidade precisa disputar espaço com a imaginação organizada, a verdade deixa de ser ponto de partida, passa a ser apenas mais uma versão possível.

Sair da versão mobile