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O messias de celuloide

Existe algo profundamente revelador no trailer de Dark Horse. Não apenas pelo que ele mostra, mas pela forma como mostra.

Em pouco mais de dois minutos, o ex-presidente Jair Bolsonaro surge como uma espécie de herói messiânico de ação: perseguido pelo sistema, cercado por inimigos ocultos, ameaçado por forças conspiratórias e destinado a salvar uma nação sequestrada por elites perversas. Não é exatamente cinema político. É outra coisa.

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Talvez o termo mais preciso seja mesmo aquele que o trailer involuntariamente sugere: pornografia política.

Porque pornografia, no fim das contas, não é excesso de sexo. É excesso de obviedade. É a destruição da sutileza em nome do estímulo imediato. Tudo precisa ser explícito, exagerado, mastigado. Nada pode depender de interpretação. E Dark Horse parece operar exatamente assim.

O Bolsonaro do filme — interpretado por Jim Caviezel — não é um homem. É um arquétipo plastificado. Um guerreiro solitário hollywoodiano, desses que apanham do sistema durante duas horas até vencer no terceiro ato ao som de uma trilha grandiosa. A ironia é que o personagem fictício parece melhor do que o Bolsonaro real: mais eloquente, mais estratégico, mais heroico, mais coerente.

E isso talvez seja o detalhe mais importante de todos.

Porque o cinema sempre mentiu. Mas as boas obras mentem para revelar algo humano. Dark Horse parece mentir para fabricar absolvição.

O trailer alterna cenas da campanha de 2018 com imagens de mercenários e conspirações clandestinas, sugerindo que opositores políticos planejavam eliminar Bolsonaro fisicamente. Adélio Bispo vira “Aurélio Barba”, quase como se a mudança caricatural do nome servisse para libertar o roteiro das limitações da realidade.

O problema é que a própria realidade já não sustenta essa narrativa. A Polícia Federal concluiu reiteradas vezes que Adélio agiu sozinho no atentado de Juiz de Fora. Ainda assim, o filme prefere a lógica conspiratória: sombras, mandantes ocultos, partidos operando nas trevas, agentes infiltrados. Não há nuance. Não há investigação psicológica. Não há ambiguidade moral. Existe apenas o velho mecanismo binário que domina parte da política contemporânea: o herói puro contra o mal absoluto.

E talvez seja justamente aí que Dark Horse revele mais sobre o bolsonarismo do que gostaria. Porque o trailer não parece interessado em reconstruir fatos. Parece interessado em consolidar mitologia.

Toda corrente política autoritária sonha com isso em algum momento: deixar de disputar a realidade e passar a disputar simbolicamente a memória. Não basta governar. É preciso transformar o líder em personagem inevitável, alguém cuja biografia transcende o mundo comum e entra no território da lenda.

Roma fez isso ao atribuir origem divina à sua fundação, ligando Eneias e os mitos troianos ao nascimento do império. Alexandre, o Grande, estimulou a própria imagem como descendente de Zeus. Napoleão transformou derrotas em pinturas heroicas. O século XX industrializou o processo: Mussolini encenava multidões, Stalin retocava fotografias, Perón virou liturgia popular, Chávez virou presença eterna transmitida em cadeia nacional.

Foi assim com inúmeros líderes convertidos em produto cultural antes mesmo de serem digeridos pela história.

O curioso é que o bolsonarismo, que durante anos se vendeu como antissistema, acaba produzindo exatamente o tipo de propaganda emocional que sempre acusou a esquerda de fazer. E produz isso com estética importada.

O filme é falado em inglês. Os atores brasileiros interpretam latino-americanos com sotaque estadunidense. Há mercenários internacionais, ambientalistas estrangeiros, “pedófilos de Hollywood” e inimigos globais sem rosto. O Brasil do trailer não parece Brasil. Parece uma fanfic geopolítica produzida dentro de um fórum conspiratório da internet.

O mais fascinante é perceber como o projeto tenta simultaneamente tropicalizar e americanizar Bolsonaro. Ele deixa de ser um político brasileiro cheio de contradições locais para virar um avatar internacional da guerra cultural global.

E Jim Caviezel não é escolha acidental. O ator que interpretou Jesus em A Paixão de Cristo também se tornou símbolo de setores ultraconservadores ligados a teorias conspiratórias e narrativas apocalípticas nos Estados Unidos. Sua presença funciona menos como elenco e mais como código ideológico.

O subtexto é evidente: Bolsonaro não seria apenas um político perseguido. Seria um escolhido.

Mas há outro detalhe importante nessa história, e talvez ainda mais revelador.

O filme emergiu em meio às denúncias envolvendo pedidos de financiamento feitos por Flávio Bolsonaro ao banqueiro Daniel Vorcaro, investigado em escândalos financeiros. O épico antissistema precisou recorrer justamente às engrenagens clássicas do poder, do dinheiro e da influência que dizia combater.

E talvez não exista síntese melhor do bolsonarismo contemporâneo do que essa.

Um movimento que prometia romper com tudo acabou produzindo sua própria mitologia oficial, seus próprios oligarcas, seus próprios roteiros heroicos e sua própria indústria de fantasia política.

No fim, Dark Horse não assusta por ser propaganda.

Propaganda sempre existiu.

O que assusta é a ausência completa de sutileza. A incapacidade de perceber que líderes políticos reais, quaisquer que sejam, se tornam mais perigosos justamente quando deixam de ser tratados como homens e passam a ser vendidos como personagens sagrados.

O Bolsonaro fictício do trailer talvez seja menos perigoso que o real.

Porque o fictício termina quando sobem os créditos.

O outro ainda disputa a memória de um país inteiro.

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