Diário de Curitiba

O candidato que descobriu o terrorismo

Existe algo quase cinematográfico, e profundamente calculado, na tentativa de Flávio Bolsonaro de se apresentar como o homem que convenceu os Estados Unidos a classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas.

A cena parece saída de uma série política de streaming: visita à Casa Branca, encontro com Donald Trump, declarações sobre soberania e segurança continental. Dias depois, o governo americano anuncia a medida. Flávio comemora nas redes: “Grande dia”. Para o público desavisado, a narrativa funciona perfeitamente. O senador aparece como o líder capaz de internacionalizar o combate ao crime, pressionar estruturas transnacionais e agir onde o Estado brasileiro supostamente falha.

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É justamente aí que o tema fica perigoso. A classificação de facções como grupos terroristas vai muito além do campo jurídico; é uma poderosa ferramenta geopolítica. Nos EUA, essa designação permite ampliar sanções financeiras, mobilizar mecanismos de inteligência e, no limite, justificar ações extraterritoriais sob o manto da segurança nacional.

Daí o desconforto do governo Lula. Não por negar a gravidade do PCC ou do Comando Vermelho, mas pelo temor histórico — compartilhado por setores que transcendem a esquerda — de que o combate ao crime vire pretexto para formas agressivas de intervenção externa. A América Latina conhece bem esse roteiro: durante décadas, o narcotráfico e as “ameaças à democracia” serviram como senha diplomática para Washington ampliar sua influência na região, raramente resultando em estabilidade institucional.

Mas o movimento de Flávio Bolsonaro mira menos a geopolítica e mais a narrativa eleitoral.

Politicamente, a operação é inteligente. Ao avocar o protagonismo da medida, o senador ocupa um espaço simbólico poderoso: o do político de “mão firme”, que acusa adversários de leniência. Mais do que isso, ele constrói sua estatura internacional não como um parlamentar comum, mas como o interlocutor preferencial de uma nova direita global alinhada ao trumpismo e à guerra cultural.

A foto na Casa Branca cumpre exatamente esse papel. Ainda que o encontro tenha sido protocolar, do tipo que visitantes e aliados produzem diariamente, o valor político da imagem não está na profundidade diplomática do diálogo, mas na sua circulação simbólica. Na política contemporânea, parecer relevante frequentemente importa mais do que ser.

Foto: Reprodução Redes Sociais

O problema é a ironia incômoda que atravessa essa construção. O mesmo político que hoje reivindica o monopólio do combate às facções convive há anos com investigações e proximidades nebulosas envolvendo milicianos e o submundo da segurança paralela no Rio de Janeiro.

Esse passado não desaparece com uma nova bandeira de campanha. Ao contrário, ajuda a explicar a utilidade dela. Transformar o PCC e o Comando Vermelho no símbolo do “mal absoluto” permite reorganizar narrativas, deslocar o foco e construir uma nova centralidade em torno da segurança pública — historicamente, o terreno eleitoral mais eficiente para lideranças conservadoras em momentos de desgaste.

A coincidência temporal também não é sutil. A ofensiva internacional de Flávio acontece justamente quando ele tenta mitigar desgastes internos, como o recente constrangimento envolvendo o financiamento do filme Dark Horse, e a sua própria dificuldade de consolidar um protagonismo hereditário dentro do espólio bolsonarista.

Nesse contexto, a pauta do terrorismo oferece um atalho moral precioso. “Terrorista” não é uma mera categoria criminal, é uma categoria emocional. Desde o 11 de Setembro, a palavra carrega um poder avassalador no imaginário ocidental. Terroristas não são apenas criminosos a serem julgados; são inimigos absolutos. E inimigos absolutos autorizam medidas excepcionais.

Mora aí o xis da questão. Não se trata de dourar a pílula para a brutalidade de facções que sequestram territórios e espalham o terror pelo país. A questão é outra: quem ganha politicamente quando o debate deixa de ser sobre crime organizado e passa a ser sobre guerra?

Guerras alteram linguagens, limites e permissões. Alteram, sobretudo, o tipo de líder que passa a parecer necessário.

Flávio Bolsonaro entendeu que, em um mundo dominado pelo medo e pela hiperpolarização, há um mercado eleitoral vigoroso para quem transforma o combate ao crime em uma cruzada internacional, ainda que, no processo, o Brasil precise importar não apenas a retórica americana, mas também suas obsessões e consequências.

No fim, a pergunta mais importante não é se o PCC e o Comando Vermelho são organizações monstruosas. Isso o país sabe há décadas. O que exige atenção é como, quando a segurança pública vira linguagem política permanente, cada novo inimigo deixa de ser apenas uma ameaça criminal para se tornar um valioso ativo eleitoral.

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