Em show genuíno, Brenda Lee e o Palácio das Princesas leva a plateia do Festival de Curitiba ao delírio com suas músicas e performances. A princípio, seriam apenas 2 sessões no Teatro Zé Maria, nos dias 02 e 03 de abril. Mas o sucesso foi tanto na estreia, que abriram uma sessão extra, também no dia 03 de abril, com inclusão para público LGBTQIAPN+. Foram 50 ingressos gratuitos para pessoas trans. Depois de estrear em formato online na pandemia de Covid-19, o musical do Núcleo Experimental, ganhou sua versão presencial, com duas apresentações na Mostra Lúcia Camargo.
O espetáculo é baseado em fatos. Conta a vida da travesti Caetana, também conhecida como Brenda Lee, que se tornou um marco na luta por direitos LGBTQIAPN+. O trabalho tem dramaturgia e letras de Fernanda Maia, direção e figurinos de Zé Henrique de Paula e música original e direção musical de Rafa Miranda. O musical, que traz em cena seis atrizes transvestigêneres (Verónica Valenttino, Olivia Lopes, Marina Mathey, Tyller Antunes, Rafa Bebiano e Leona Jhovs) e um ator cisgênero (Fabio Redkowicz), fala sobre a luta das travestis nas ruas de São Paulo, a escassez de oportunidades que as impele à prostituição e sobre como foram apoiadas por Brenda, que acolheu em sua casa as doentes de Aids numa época em que quase nada ainda se sabia sobre a doença.
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A história real é forte, e a interpretação foi cirúrgica, não deixou a desejar. Uma peça tão necessária nos dias de hoje, onde fala-se muito em inclusão do público LGBTQIAPN+, porém ainda falta muito para que políticas públicas alcancem-nas de verdade. Muitas pessoas emocionadas na plateia, dava para ouvir o choro contraído, de quem não queria atrapalhar os demais. Pela excelente atuação, Verónica Valenttino levou o Prêmio Shell de Teatro em sua 33° edição, tornando-se a primeira atriz trans a vencer o Prêmio. O musical também foi vencedor no Prêmio Bibi Ferreira e Prêmio Arcanjo de Cultura.
Além da performance repleta de autenticidade das atrizes, a orquestra, formada por Rafa Miranda (piano), Juma Passa (contrabaixo), Rafael Lourenço (bateria) e Carlos Augusto (guitarra e violão), deram show. Espetáculo conta, ainda, com preparação de atores de Inês Aranha e coreografia de Gabriel Malo.
Quem foi Brenda Lee?
Brenda Lee, nascida em Pernambuco, em 1948, foi uma militante transexual dos direitos da população LGBTQIAPN+. Morando em São Paulo, comprou um sobrado no bairro do Bexiga e começou a acolher travestis portadoras do vírus HIV numa época em que quase nada se sabia sobre a epidemia e em que o preconceito condenava pessoas com HIV ao abandono e à solidão. A importância de Brenda Lee foi enorme, sua casa de apoio e acolhimento à população trans ficou conhecida como Palácio das Princesas, firmou convênios com a Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo e com o Hospital Emílio Ribas e, em conjunto, aprimoraram a forma de atender pacientes soropositivos, independente de gênero, sexo, orientação sexual e etnia. Aos 48 anos, em 28 de maio de 1996, no auge de seu projeto, Brenda foi assassinada, encontrada no interior de uma Kombi estacionada em um terreno baldio com tiros na região da boca e no peitoral. O crime teria sido motivado por um golpe financeiro cometido por um funcionário da casa. Em 2008, foi criado o “Prêmio Brenda Lee”, que contempla personalidades que se destacam na luta contra o HIV e prevenção da Aids.
Confira fotos: Fotos Humberto Araujo