O naturalista Charles Darwin (1809-1882), afirma em sua teoria da seleção natural, baseada na competição entre as espécies, que essa é a principal força impulsionadora da evolução dos seres vivos. Mas, será mesmo que a competição nos leva à evolução? Essas e outras reflexões podem ser geradas a partir do discurso do Monólogo A Aforista de Marcos Damaceno.
Rosana Stavis, atriz ganhadora do Troféu Gralha Azul, sustenta brilhantemente seu personagem durante 70 minutos no palco. Contando a história de um famoso pianista (John Marcos Martins) e um segundo (Polacoviski), que por sua vez, tem um destino trágico. A narrativa desenvolve-se a partir das lembranças, pensamentos e imaginação da narradora, amiga de ambos e por eles apelidada de “aforista”.
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Como na tragicomédia, o público vai do riso ao espanto e à comoção em poucos minutos. Em seus devaneios, a Aforista revela o suicídio de Polacoviski e divaga sobre as mais diversas possibilidades, daquilo que poderia ter sido a causa que levou seu amigo ao trágico fim. Abordando a competitividade entre os amigos pianistas, ela vai contando que enquanto um chegou ao sucesso, sem nem ao menos almejá-lo, o outro paralisou diante do sucesso alheio, desistindo de seguir sua carreira musical.
Para John Marcos Martins, o sucesso era consequência do trabalho e esforço. Dedicou-se a vida toda à música, sendo um brilhante pianista, mas não quis colher frutos de fama. Isolado em sua casa no meio do mato, bastou para ele tocar e tocar.
Polacoviski, por sua vez, que tanto almejou a fama e bajulação, desistiu perante a perfeição e genialidade do amigo, sem nem ao menos tentar. O segundo lugar ou ser “tão bom quanto”, não lhe bastaria. Era tudo, ou nada! E nesse caso, ficou com o nada.
O quão saudável é nos compararmos? O “ser bom” não é suficiente? Eu preciso mesmo ser o “melhor”? O que é o sucesso? Fama, dinheiro?
Despejando essas críticas intrinsecamente, a Aforista vai andando e pensando na trajetória, em sua relação com seus antigos amigos de faculdade, o caminho que cada um seguiu, onde chegaram. Pensando no poder da influência e questionando o quê, de fato, foi a gota d’água para o lamentável fim do querido amigo. “Talvez seu ego”, fala da personagem.
A competição sempre esteve presente na história da humanidade, seja ela religiosa, econômica, política, esportiva ou afetiva. Mas, será que existe mesmo resultado efeito na competição? Geovana Bratti, em seu artigo “A relação do ser humano com a competição” fala que “Ao longo dos milênios, ela (a competição) acabou por nos estimular de alguma forma e nos trouxe até a era moderna, da inteligência artificial, da bio e nanotecnologia”.
Já para o autor Alfie Koh, em seu livro “No Contest? – ?The Case Against Competition“, competir não mede efetivamente as competências e habilidades do indivíduo, mas acaba com os seus talentos, reduz a autoestima e aumenta a insegurança. “A competição somente tem competência para mensurar a resiliência das pessoas durante as dificuldades”, declara.
Por essas e outras reflexões que a peça nos leva, ela é um presente para o público que, num Teatro Zé Maria lotado, aplaudiu de pé a elegância e maestria do espetáculo regado de música, vinda de dois pianos de cauda, duelando ao vivo no palco.
O espetáculo segue em cartaz até o dia 30 de Julho no Teatro Zé Maria Santos. Confira na matéria>>> aqui.