No crepúsculo de Curitiba, onde o frio corta o asfalto e as memórias se escondem sob névoas passageiras, Nelson Rebello já não desce mais a Rua das Flores empurrando sua bicicleta, o corpo reluzente de óleo. A cidade que um dia se acostumou a vê-lo deslizar entre pedestres e curiosos agora se despede do homem que, por três décadas, desafiou o ordinário e se tornou lenda urbana.
Escrevi sobre ele em 2018, quando o herói já não se fazia tão presente. Era um Oil Man em pausa, um mito entre ciclos de reclusão e ressurgimento. Conversamos brevemente, ele me recebeu sem seu uniforme de sunga e brilho, com a seriedade de quem já não carregava mais a mesma euforia de outros tempos. Havia perdido os pais, sentia o peso da ausência, e sua Teoria do Oil Man passava por reformulações internas. Disse-me, na ocasião, que a vida ao ar livre ainda fazia sentido, mas que ele próprio já não se sentia tão livre.
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Agora, seis anos depois, a pausa virou ponto final. A última pedalada foi dada em silêncio, sem anúncios, sem despedidas.
Quem viu Nelson Rebello no auge lembra-se dele como uma espécie de entidade local, um espírito de liberdade que cortava o calçadão da XV como se fosse seu palco pessoal. Entre espantos e sorrisos, provocava, sem querer, uma Curitiba menos cinza, menos presa à formalidade dos sobretudos e à pressa burocrática de seus transeuntes.
Mas o Oil Man também foi humano. Atrás da máscara — ou melhor, da sunga —, havia um homem que sentia a perda, que conhecia o peso do tempo e que, pouco a pouco, recolheu sua bicicleta para dentro de casa, acompanhado apenas pelo Oil Dog, seu leal pit bull Leo.
Nelson agora se junta à mitologia de Curitiba, ao lado de figuras que pertencem mais à memória coletiva do que aos registros oficiais. Não haverá outro como ele, porque heróis urbanos não se fabricam; eles simplesmente acontecem.
E se o Oil Man um dia foi personagem de sua própria história, hoje é saudade de uma cidade que, sem perceber, precisava dele para se lembrar de que a vida é mais do que rotina, concreto e relógios apressados.