Rosa Parks se recusou a ceder seu assento a um homem branco em um ônibus segregado no Alabama, em 1955. Um gesto simples — e imensamente corajoso — que ajudou a pavimentar o caminho do movimento dos direitos civis nos Estados Unidos. Parks resistiu a um sistema legalmente racista, enfrentou a opressão com dignidade e pagou um preço alto por isso.
Setenta anos depois, tentam nos convencer de que Parks reencarnou em Brasília, no corpo de uma mulher que escreveu “Perdeu, mané” com batom em uma estátua, durante a invasão e depredação das sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023.
É quase comovente — não fosse ofensivo.
Um vídeo que circula nas redes sociais promove essa comparação como parte de uma campanha pela anistia dos envolvidos no ataque às instituições democráticas. O roteiro é eficaz em sua retórica emocional: cita grávidas, cabeleireiras, idosos, moradores de rua — todos apresentados como vítimas de um sistema judicial implacável e arbitrário. Todos, supostamente, presos apenas por estarem “no lugar errado, na hora errada”.
A intenção é clara: transformar réus condenados por crimes contra o Estado Democrático de Direito em mártires da liberdade. Mas há uma diferença gritante entre desobediência civil e tentativa de golpe. Entre a recusa de uma mulher negra a uma ordem injusta e a invasão violenta do Supremo Tribunal Federal.
O que o vídeo omite, estrategicamente, são as provas abundantes: imagens de câmeras de segurança, registros de localização, vídeos publicados pelos próprios acusados nas redes sociais. Não estamos falando de suposições — estamos falando de flagrantes. Não é a cor do batom que está em julgamento, mas a intenção e o contexto do ato.
O argumento da “justiça seletiva” também ganha espaço na peça. Cita políticos que não estão presos, militantes de esquerda que protestaram no passado, ocupações do MST e manifestações da CUT. E então pergunta: “Por que eles podem e nós não?”
A resposta é simples: porque não é a ideologia que define o crime, mas os atos. Protestar contra reformas trabalhistas ou contra cortes na educação não equivale a invadir os três poderes e pedir intervenção militar. Alegar equivalência entre esses eventos é intelectualmente desonesto — e politicamente perigoso.
A anistia, tal como proposta, não é um gesto de reconciliação, mas de impunidade. Representa o enfraquecimento da democracia, a normalização da violência política e o incentivo a novas tentativas de ruptura institucional. Serve menos aos condenados do que aos que ainda esperam uma nova oportunidade para repetir o feito — desta vez, com mais eficácia.
Comparar Rosa Parks a um vândalo golpista é como comparar Martin Luther King a um agitador que incendeia urnas. Ambos falam em nome da “liberdade”, é verdade. Mas os caminhos são opostos: um desobedece para construir; o outro destrói para impor.
Rosa Parks pediu justiça. Os réus do 8 de janeiro pedem anistia. Quem tenta fundir esses pedidos em um só está, na prática, zombando dos dois.
