Tem algo no ar. E não é o frio de julho, nem a névoa das manhãs curitibanas, nem a fumaça seca de queimadas. É uma febre que não aparece no termômetro, mas que ferve os ânimos e desregula a lógica. Uma febre sem corpo doente, mas com a alma em estado terminal. O nome acadêmico é radicalização. Mas aqui, do lado de fora das universidades, ela se manifesta como fúria vestida de civismo. Delírio com bandeira na mão.
Não é de hoje que o patriotismo anda doente. O que antes era um sentimento imperfeito, mas sincero — feito de hino desafinado, torcida emocionada, vergonha da corrupção e um orgulho tímido da nossa resistência —, foi sequestrado por um surto ideológico que transformou a bandeira em uniforme de guerra cultural. O verde e amarelo, cores que deveriam unir, viraram farda emocional. E a farda, como sabemos, não foi feita para abraçar.
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Estamos diante de um fenômeno inquietante: pessoas que se dizem patriotas, mas que odeiam seu próprio país. Que se vestem de nação para atacar a democracia. Que dizem defender a liberdade, mas só aceitam uma versão da história, uma religião, um líder, um salvador.
A febre ideológica que veste farda não discute. Ela acusa. Não pensa. Ela repete. Não propõe. Ela venera. O pensamento crítico é trocado por vídeo de 30 segundos com trilha de suspense e dancinha provocativa. O debate virou meme. A política virou seita. E a democracia virou obstáculo.
Vimos isso com todas as cores (e surtos) nos últimos dias. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicou uma carta anunciando uma tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros. Acusou o STF de censura, defendeu Jair Bolsonaro como perseguido político e ameaçou retaliar o Brasil caso reaja. Foi uma carta agressiva, diplomática apenas no papel timbrado. E o que fizeram alguns brasileiros? Aplaudiram.
Aplaudiram o castigo. Aplaudiram a ameaça. Aplaudiram a humilhação.
Eduardo Bolsonaro, licenciado do mandato, em solo americano, publicou vídeos agradecendo Trump pela tarifa e pedindo sanções contra Alexandre de Moraes. Um brasileiro, em missão oficiosa, agindo contra o próprio país, celebrando o prejuízo como vitória moral. É a febre. A febre que desorienta. Que troca o país pelo mito. Que confunde defesa com sabotagem.
Essa febre tem sintomas claros: gritar contra o STF e se curvar à Casa Branca. Acusar jornalistas de traição e aplaudir redes estrangeiras que espalham desinformação. Defender o agro, mas comemorar tarifa contra o agro. Jurar lealdade à Constituição com uma mão, enquanto flerta com a ruptura institucional com a outra.
A verdade é que há brasileiros que já desistiram do Brasil. Preferem o Texas ao Tocantins. Preferem a Bíblia traduzida em inglês à leitura contextualizada da nossa história. Preferem o conforto de obedecer ao desconforto de pensar. Como alertava Hannah Arendt: “Onde todos obedecem, ninguém pensa.”
E pensar é o que mais precisamos agora.
Pensar sobre o que virou o discurso público. Pensar sobre o que virou o amor à pátria. Pensar sobre quem lucra com nossa divisão, nosso ódio, nosso medo. Pensar sobre como o extremismo não nasce do nada — ele é cultivado, regado, ensinado. Em casa, na igreja, na escola, na tela.
Não se trata aqui de defender governos. O governo Lula tem erros, contradições, omissões. Já apontamos isso. Já falamos da postura ambígua em relação à crise em Gaza, da hesitação diante da Rússia, do silêncio constrangedor frente ao Irã. Mas há uma diferença brutal entre criticar com consciência e torcer contra com orgulho. Entre oposição democrática e sabotagem institucional.
O que estamos vendo não é só intolerância. É delírio com microfone. É performance disfarçada de opinião. É gente que se traveste de cidadão, mas age como mascote ideológico. E mascotes, como sabemos, não pensam. Eles animam. Eles agitam. Eles obedecem.
Mas o Brasil não é uma torcida. É um país.
E um país não se sustenta com grito. Nem com dancinha. Nem com reels. Um país precisa de discernimento, de projeto, de memória. Precisa saber onde está e para onde vai. Precisa saber o que fazer quando a febre bate.
A febre que veste “farda” pode parecer heroica. Pode marchar. Pode gritar “liberdade”. Pode chamar a si mesma de movimento. Mas, no fim, é só doença. E o antídoto, por mais difícil que pareça, ainda é a lucidez.
Que a gente volte a pensar. Que a gente volte a discordar com respeito. Que a gente volte a amar este país de verdade — e não o personagem que inventamos para chamar de nação.
Porque o Brasil já teve surtos demais.
O que falta agora é um pouco de juízo.