Há decisões internacionais que não chegam acompanhadas de discursos grandiosos nem de comunicados solenes. Elas chegam com o som seco de aviões, o estrondo distante de explosões e a percepção tardia de que uma linha invisível foi cruzada.
A intervenção dos Estados Unidos na Venezuela foi uma dessas decisões.
Em poucas horas, Caracas deixou de ser apenas a capital de um regime autoritário e passou a ser o centro da mais grave ação militar americana na América Latina desde a invasão do Panamá, em 1989. Bombardeios seletivos, captura do chefe de Estado e a promessa explícita de que Washington administrará o país até decidir que a transição é “adequada”. Não é retórica inflamada. É ocupação.
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Donald Trump anunciou que Nicolás Maduro foi capturado e levado aos Estados Unidos para responder a acusações de tráfico de drogas e armas. O gesto foi apresentado como parte de uma ofensiva contra o crime organizado internacional — uma justificativa antiga, testada e sempre conveniente. Foi assim no Panamá. Foi assim em outras intervenções ao longo do século XX. O roteiro muda pouco; mudam apenas os nomes.
É justamente aí que começam os problemas.
Uma coisa é condenar Maduro — um líder autoritário, responsável por uma crise humanitária devastadora e por processos eleitorais amplamente desacreditados. Outra, muito diferente, é aceitar sem ressalvas a ideia de que a captura de um presidente estrangeiro, dentro de seu próprio território, por forças militares externas, represente um avanço democrático. Nesse ponto, a narrativa heroica começa a falhar.
Trump não apresentou prazo para a ocupação, não detalhou quem governará, nem sob quais regras institucionais. Limitou-se a afirmar que os Estados Unidos conduzirão a Venezuela até julgarem a transição “segura”. É uma frase curta, mas carregada de história. Sempre que uma potência decide sozinha o que é “adequado” para outro país, o resultado raramente é estabilidade. Costuma ser instabilidade prolongada.
A promessa de mudança de regime parece simples no discurso, mas é brutal na prática. A Venezuela não é um Estado vazio à espera de um novo governo. O chavismo controla o Judiciário, o Exército, as forças de segurança e redes paramilitares armadas. A retirada do topo não dissolve a estrutura; frequentemente, apenas a fragmenta. E fragmentação armada raramente produz democracia. Produz guerra interna.
Mesmo setores da oposição venezuelana, historicamente contrários a Maduro, demonstraram desconforto. Não por simpatia ao regime, mas por memória histórica. A América Latina já assistiu a esse filme. Intervenções externas prometem ordem, eleições e prosperidade. Entregam dependência, instabilidade e ressentimento duradouro. O custo nunca recai sobre quem decide — recai sobre quem vive ali.
O gesto de Washington também redesenha o tabuleiro regional. Brasil e Colômbia, atores centrais para qualquer solução sul-americana, não apoiam uma intervenção militar. Ao mesmo tempo, Trump acumula tensões com aliados, impõe tarifas como instrumento de pressão política e mistura política externa com agendas eleitorais domésticas. Isso não configura uma estratégia consistente de segurança hemisférica. É política de força improvisada.
E improviso, em geopolítica, costuma ser fatal.
Há ainda uma contradição impossível de ignorar. A mesma Casa Branca que denuncia autoritarismo fora de suas fronteiras convive com ataques crescentes às instituições dentro delas. Defender a democracia com bombardeiros exige uma coerência que Washington, hoje, não demonstra disposição para oferecer.
Maduro já caiu. A questão agora não é sua permanência no poder, mas o vazio que se abre depois dela. E, nesse ponto, a história fala mais alto do que qualquer discurso. Na América Latina, mudanças de regime impostas de fora raramente constroem democracias estáveis. Costumam produzir tutelas prolongadas, dependência externa e ciclos de instabilidade que se arrastam por décadas.
O problema, portanto, não é apenas o risco imediato. É o precedente.
Quando uma potência decide que pode capturar um presidente estrangeiro, administrar um país sem prazo e redefinir soberania alheia segundo seus próprios critérios, o recado não é apenas para Caracas. É para toda a região — e para além dela.
A América Latina conhece bem esse tipo de aviso. Viveu décadas sob ele. Nunca gostou do desfecho.
Mas o mundo também deveria prestar atenção. Precedentes não respeitam fronteiras nem discursos morais. Se a lógica da força substitui a da legalidade na Venezuela, ela se torna argumento em Moscou, em Pequim, em qualquer lugar onde líderes aguardam apenas a chance de chamar exceção de regra.
Hoje, Washington aponta para Caracas. Amanhã, alguém apontará para Kiev. Ou para Taipei. Sempre haverá uma justificativa nobre, uma urgência estratégica, uma retórica de salvação.
A história mostra que o problema nunca é o primeiro a atravessar a linha —
é o fato de que, depois disso, ela deixa de existir.






