
Quase metade da população da região Sul do Brasil desconhece ou erra a definição do Holocausto. É o que aponta a pesquisa inédita “Conhecimento sobre o Holocausto no Brasil”, divulgada nesta quinta-feira (22) pelo Museu do Holocausto de Curitiba, em conjunto com a Confederação Israelita do Brasil (Conib), o Memorial do Holocausto de São Paulo e a StandWithUs Brasil.
Segundo o levantamento, realizado pelo Instituto ISPO, 47% dos entrevistados responderam de forma incorreta ou disseram não saber definir o Holocausto. Parte deles confundiu o extermínio de cerca de seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial com um conflito militar, um movimento cultural ou um episódio isolado de violência. Em Curitiba e na Região Metropolitana, o índice de respostas incorretas ou de desconhecimento chegou a 45%. Em todas as faixas etárias analisadas nos três estados (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul), do grupo de 18 a 29 anos aos entrevistados com mais de 60 anos, mais de 30% declararam não saber definir o Holocausto.
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Embora metade dos participantes considere fundamental conhecer o Holocausto para prevenir futuros episódios de ódio, violência e intolerância, o estudo indica que apenas 29% afirmam ter plena compreensão do tema. Enquanto 33% considera ter um conhecimento superficial, 38% dos entrevistados nunca ouviu falar ou não têm certeza se já teve contato com o assunto.
Os dados evidenciam que o conhecimento da população da região Sul sobre o Holocausto ainda é raso e desigual, indicando que, quanto menor o nível de escolaridade, maior é o desconhecimento ou a interpretação equivocada sobre o genocídio.
“Os resultados oferecem, pela primeira vez, uma ferramenta estratégica que vai além do senso comum. Eles revelam um alto grau de desconhecimento sobre o que foi o Holocausto e seu potencial pedagógico; um desafio que não é exclusivo desse tema, mas reflete um sistema educacional fragilizado, com carência de reconhecimento e formação adequada para os educadores. Com base em dados concretos, e não mais em suposições, poderemos identificar públicos prioritários, ajustar linguagens e qualificar as ações educativas”, destaca Carlos Reiss, coordenador-geral do Museu do Holocausto de Curitiba, primeiro espaço do gênero criado no Brasil.

Ensino, educação e memória

Outro dado relevante apontado pela pesquisa é o baixo engajamento em atividades educativas e culturais. A maioria dos entrevistados (85%) afirmou não conhecer ou nunca ter participado de eventos, palestras ou visitas a museus relacionados ao Holocausto. Ainda assim, 47% consideram que museus, memoriais e instituições educacionais devem ter um papel prioritário na divulgação e contextualização do tema, enquanto 31% não souberam avaliar a atuação desses espaços.
Para as coordenadoras do Departamento Pedagógico do Museu do Holocausto de Curitiba, Denise Weishof e Luzilete Falavinha, os resultados do estudo reforçam a importância de trabalhar o Holocausto como um tema complexo, com implicações que ultrapassam a Segunda Guerra Mundial e ressoam com questões que ainda afetam a sociedade.
“O primeiro contato da maioria das pessoas com o Holocausto acontece na escola. Por isso, é importante trabalhar esse conteúdo de forma mais ampla e aprofundada, indo além do fenômeno e pensando sobre sua ligação com a realidade. O quanto essa história dialoga com a minha história pessoal, a da minha cidade e do meu país, e como isso abre o debate para pensar a atualidade. Na história, não existe repetição, mas existem permanências: o preconceito, a intolerância e a discriminação, todos esses elementos seguem presentes nas sociedades”, afirma Luzilete.
“Pensar o ensino do Holocausto é estudar um fato histórico com olhos da atualidade, refletindo sobre o que ainda está na sociedade e precisa ser combatido. O Holocausto traz todo esse arcabouço para pensar o tempo presente e dialogar com outros acontecimentos, genocídios e perseguições. Por isso, é uma ferramenta tão potente de ensino”, complementa Denise.
Contexto nacional do levantamento
Fora do recorte regional, os dados também indicam que o desconhecimento sobre o Holocausto é significativo no país. Em âmbito nacional, o levantamento revela que apenas 53,2% dos brasileiros sabem definir corretamente o Holocausto como o extermínio sistemático de cerca de seis milhões de judeus pelo regime nazista.
Além disso, 40,7% dos entrevistados afirmaram nunca ter ouvido falar do Holocausto, não saber do que se trata ou não ter certeza se já tiveram contato com o tema. Na prática, isso significa que quatro em cada dez brasileiros reconhecem não ter conhecimento sobre esse episódio histórico. Quando questionados sobre a definição do genocídio, 31,1% não souberam responder.
O desconhecimento aparece também em outros elementos centrais. Apenas 38,5% identificaram Auschwitz-Birkenau como um campo de extermínio, enquanto mais da metade dos entrevistados (61,6%) não soube responder ou errou a identificação de um dos principais símbolos dos crimes cometidos pelo regime nazista.
Como a pesquisa foi feita
Realizada pelo Instituto ISPO entre 4 e 21 de abril de 2025, a pesquisa teve como fase piloto a região Sul do Brasil, com 2.482 entrevistas presenciais em Curitiba (PR), Porto Alegre (RS) e Florianópolis (SC), além de suas regiões metropolitanas.
Nos meses de setembro e outubro do ano passado, o levantamento foi ampliado para outras oito regiões do país, ouvindo 5.280 pessoas em São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Belo Horizonte (MG), Fortaleza (CE), Recife (PE), Salvador (BA), Brasília (DF) e São Luís (MA).
A pesquisa teve como objetivo avaliar o nível de conhecimento da população brasileira sobre o Holocausto, identificando lacunas, distorções e desigualdades no acesso à informação, além de analisar fatores sociais que influenciam essa compreensão. O estudo também mapeou as principais fontes de informação e a percepção sobre a importância do ensino do tema, oferecendo subsídios para políticas educacionais voltadas à memória, aos direitos humanos e à democracia.


