O setor da habitação no Brasil é marcado por ciclos longos, forte dependência de crédito e decisões estratégicas que precisam resistir a mudanças econômicas e políticas. Diante do impacto dos juros altos no mercado, a decisão de compra do primeiro imóvel exige cautela e o planejamento financeiro segue sendo o principal aliado do comprador.
De acordo com o Ministério da Fazenda, o governo brasileiro quer aumentar a participação do crédito imobiliário no Produto Interno Bruto (PIB), que hoje está em torno de 10%, para um patamar entre 15% e 20% em 10 anos. Segundo o presidente do Sicoob Imob.vc e da Netimóveis Brasil, Ariano Cavalcanti de Paula, o crédito imobiliário teve um crescimento substancial desde o ano 2000, com uma evolução acima de 20% nos últimos anos. "Esse aumento proporcionou uma redução considerável do déficit habitacional brasileiro, que, no início do milênio, era de cerca de 7 milhões de unidades e, hoje, representa um número menor que 6 milhões", conta o especialista.
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Ele explica que, mais do que o nível dos juros, o principal entrave para quem busca o primeiro imóvel ainda é a falta de preparação fiscal. "Muitas pessoas não acessam o financiamento por não conseguirem formalizar renda e declarar corretamente o imposto de renda, o que é um passo essencial e, muitas vezes, não gera custo adicional", pondera.
Nesse contexto, ele destaca o papel do cooperativismo de crédito como alternativa ao sistema bancário tradicional. De acordo com o executivo, as cooperativas operam, em geral, com spreads menores, o que torna o financiamento mais acessível ao comprador. Ele reforça ainda que "o crédito imobiliário é determinante para viabilizar a habitação popular e atender também à classe média, hoje uma das mais pressionadas".
"Para esses públicos, o financiamento é o que cria acesso. E, mesmo em um cenário econômico instável, a compra do imóvel segue sendo uma operação de baixo risco, com condições hoje muito mais alinhadas à capacidade real de pagamento do tomador", afirma. Na avaliação dele, com a perspectiva de estabilidade ou queda dos juros, o momento pode ser favorável para quem consegue se planejar e se habilitar ao crédito.
Em um cenário de juros elevados e financiamento cada vez mais criterioso, a sustentabilidade das incorporadoras passa menos por improviso e mais por planejamento, governança e leitura de mercado. De acordo com o diretor-presidente da Emccamp Residencial, Régis Guimarães Campos, o crédito sempre foi o eixo estruturante do setor. "Habitação popular só acontece quando o financiamento funciona. Sem crédito acessível e previsível, não existe escala, não existe planejamento e o mercado simplesmente trava. Compreender essa engrenagem é fundamental tanto para quem produz quanto para quem pretende comprar o primeiro imóvel", afirma.
"O imóvel é, para muitas famílias, o maior investimento da vida. Não dá para decidir por impulso. Com organização, entendimento do orçamento e escolhas responsáveis, é possível comprar", pontua o executivo.
Governança como base para crescimento sustentável
Ao longo de quase cinco décadas de atuação da companhia no mercado imobiliário brasileiro e com mais de 75 mil unidades habitacionais entregues, a empresa construiu sua trajetória voltada majoritariamente à habitação de interesse social, especialmente dentro do programa Minha Casa, Minha Vida, hoje responsável por cerca de 80% da produção da incorporadora.
Ao revisitar a história da empresa, o executivo enfatiza que a Emccamp atravessou diferentes fases do mercado e todo o percurso, segundo ele, exigiu capacidade de adaptação constante e leitura cuidadosa dos riscos.
Ao longo dos últimos anos, a companhia passou por um processo de estruturação que incluiu a criação de conselho de administração, adoção de auditorias externas e a incorporação de executivos com experiência de mercado. "Para uma empresa atravessar gerações, ela precisa deixar de ser apenas familiar e se tornar institucional. Governança não é burocracia, é proteção do negócio", avalia.
Nesse contexto, Régis reconhece a herança dos fundadores da companhia, mas ressalta que a nova geração imprime um estilo de liderança mais colaborativo. "O empreendedor que funda costuma decidir sozinho. Hoje, as decisões são debatidas, confrontadas com dados e tomadas em conjunto", o que, segundo ele, reduz riscos e melhora a qualidade das escolhas.
No campo da inovação, o CEO destaca que a tecnologia deixou de ser acessória e passou a integrar a rotina das obras e da gestão. Ferramentas digitais, automação de processos e soluções baseadas em dados já contribuem para reduzir desperdícios, melhorar a qualidade construtiva e aumentar a eficiência operacional. "Inovar, hoje, não é fazer algo futurista. É usar tecnologia para errar menos, gastar melhor e entregar mais qualidade", resume.
O crescimento sustentável no setor imobiliário depende de disciplina, foco e visão de longo prazo. "É um mercado de ciclos extensos. Quem não respeita isso, quem cresce sem estrutura ou sem caixa, acaba ficando pelo caminho", conclui.

