O cenário de 2026 impõe novos desafios ao transporte rodoviário. Diante da inflação de insumos e do impacto da infraestrutura nos custos operacionais, calculado em 31,2% pela CNT, a gestão manual perde espaço para novas tecnologias. O setor observa uma migração para a inteligência artificial (IA), ferramenta utilizada no processamento de dados para antecipar manutenções e mitigar riscos operacionais.
A infraestrutura rodoviária continua sendo o principal gargalo de produtividade e o maior ofensor dos custos de manutenção. A Pesquisa CNT de Rodovias 2025 revela que, apesar de melhoras pontuais em trechos concedidos, a má qualidade do pavimento gera um aumento nos custos operacionais do transporte.
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Esse percentual reflete o desgaste prematuro de peças, o aumento do consumo de combustível e a redução da vida útil da frota. Quando somado à volatilidade do preço do diesel, que sofreu reajustes acumulados e impacto da variação do dólar, o gestor logístico encontra-se em uma posição onde a única variável controlável é a eficiência interna.
É neste vácuo que a tecnologia de análise preditiva ganha espaço. Diferente da telemetria convencional, que reporta eventos passados, os novos sistemas utilizam "Big Data" para cruzar o comportamento atual do veículo com bancos de dados históricos gigantescos.
A era da inteligência de dados: processando bilhões de quilômetros
A grande inovação tecnológica de 2026 reside na capacidade de transformar dados brutos em diagnósticos precisos. Para que uma IA consiga prever uma falha mecânica com semanas de antecedência, ela precisa ter "aprendido" com milhões de ocorrências anteriores.
Segundo Fernando Schaeffer, CEO da Questar Brasil, empresa especialista em gestão de frotas, "a robustez do algoritmo depende diretamente do volume de dados históricos processados e não apenas do dado em tempo real", destacando a importância dessa base histórica.
"Não basta conectar o veículo à internet; o diferencial está na inteligência do sistema. Ao analisarmos o comportamento de centenas de milhares de veículos ao longo de 20 anos, acumulamos bilhões de quilômetros de dados rodados. Isso permite que a nossa inteligência artificial identifique padrões de anomalia que um sistema comum jamais perceberiam. O resultado é a transformação de um dado frio em uma ação preventiva que salva o motor e o caixa da empresa", explica Schaeffer.
Essa tecnologia, herdada e evoluída a partir de décadas de monitoramento global, cria o que o mercado chama de "manutenção preditiva da saúde do veículo" (PVHM – predictive Vehicle Health Management). O sistema monitora parâmetros da rede CAN (Controller Area Network) em tempo real e os compara com modelos de design e produção. Se a temperatura do óleo ou a pressão do turbo desviarem milimetricamente do padrão histórico de "saúde" daquele modelo específico de caminhão, um alerta é gerado antes da quebra.
TelemetrIA: a fusão de sensores e inteligência cognitiva
Essa nova abordagem recebeu o nome de mercado de "TelemetrIA" — a fusão da telemetria com a capacidade cognitiva da IA. Diferente de rastreadores, que apenas plotam pontos no mapa, esses sistemas leem profundamente a rede CAN dos veículos, analisando milhares de parâmetros por segundo.
Frotas brasileiras são tipicamente compostas por caminhões de diferentes marcas, modelos e anos de fabricação. Cada fabricante "fala" uma língua eletrônica diferente. A tecnologia da Questar consegue traduzir todos esses dialetos para uma linguagem única, permitindo que o gestor tenha uma visão unificada da saúde da frota, independentemente se o caminhão é da marca X ou Y.
Análises da consultoria global McKinsey indicam que a manutenção preditiva normalmente reduz o tempo de inatividade da máquina em 30 a 50% e aumenta a vida útil da máquina em 20 a 40%. Para uma frota de 100 caminhões, mitigar a parada não planejada de veículos impacta diretamente o resultado financeiro e a eficiência operacional da transportadora.
O fator humano e a análise comportamental
Além da saúde mecânica, a inteligência de dados aplicada ao histórico rodado transformou a gestão do capital humano. O comportamento do motorista é mais uma variável considerada.
Empresas que trabalham com telemetria, como no caso da Questar Brasil, analisam o histórico de condução de milhares de motoristas, e a IA consegue criar perfis comportamentais sofisticados. O sistema identifica padrões de risco que são invisíveis ao olho humano, como microacelerações desnecessárias, uso inadequado do freio motor em descidas ou curvas feitas fora do eixo ideal de segurança.
Esses dados permitem uma gestão educativa. Em vez de demitir o motorista após um acidente, a empresa utiliza a tecnologia para identificar a tendência de risco antes do sinistro e aplicar treinamentos personalizados. O resultado prático é a preservação da vida e a redução drástica da sinistralidade.
Adoção da tecnologia na indústria nacional
Segundo a PINTEC, a digitalização do setor saltou de 16,9% para 41,9% em 2024. O investimento justifica-se pelo alto CAPEX: caminhões Euro 6 custam cerca de R$ 1 milhão. Operar ativos desse valor em estradas precárias sem monitoramento preditivo pode acarretar um risco financeiro considerável.
Tecnologia como escudo
Observa-se uma transição do modelo de manutenção reativa para o preditivo como tendência de mercado. O domínio na análise desses dados tende a auxiliar as transportadoras no enfrentamento dos custos elevados e no estabelecimento de novos padrões de eficiência, utilizando a tecnologia como vetor para a modernização da logística nacional frente aos desafios estruturais.
"Em suma, 2026 apresenta-se como um ano de seleção natural no mercado de transporte rodoviário. As pressões inflacionárias e a precariedade da infraestrutura, atestadas pelos índices da NTC&Logística e da CNT, formam um cenário onde não há margem para o desperdício. A adoção de inteligência artificial capaz de processar "quantidades absurdas" de histórico para gerar predições exatas surge como a principal estratégia de defesa do setor", conclui Schaeffer.


