Recentemente, a publicação das Resoluções da Diretoria Colegiada (RDCs) nº 1.012/2026, nº 1.013/2026, nº 1.014/2026 e nº 1.015/2026 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) consolidou um novo ambiente institucional para a cannabis medicinal no Brasil. As normas estruturam cultivo, pesquisa científica, ambiente regulatório experimental e comercialização sob critérios técnicos definidos, ampliando previsibilidade e segurança jurídica, conforme comunicado oficial sobre o novo marco regulatório.
Para o mercado, o impacto é imediato: a redução do risco regulatório, historicamente apontado como um dos principais entraves à expansão estruturada do setor. A consolidação normativa ocorre em um contexto de crescimento do mercado brasileiro, que movimentou cerca de R$ 971 milhões em 2025. Com regras integradas para produção nacional, pesquisa e comercialização, o setor passa a operar sob bases mais estáveis, fator considerado determinante para decisões de investimento em segmentos regulados e intensivos em compliance.
• Clique aqui agora e receba todas as principais notícias do Diário de Curitiba no seu WhatsApp!
"Não se trata apenas da autorização do cultivo, mas da consolidação de um arcabouço regulatório capaz de redefinir o perfil de risco do setor. Quando cultivo, pesquisa e comercialização operam sob parâmetros claros, o mercado passa a ser analisado sob lógica industrial e financeira. Isso aumenta a previsibilidade, reduz assimetrias e permite planejamento de longo prazo. O resultado é um ambiente mais compatível com capital estruturado e projetos de escala, posicionando o Brasil de forma competitiva no mercado global", diz Ana Gabriela Baptista, pesquisadora em terapias canabinoides e CEO da TegraPharma.
Mercado brasileiro e potencial de escala
Neste sentido, a autorização regulada para cultivo medicinal representa alteração estrutural na dinâmica econômica do setor. Para a especialista, a internalização de etapas produtivas tende a impactar custos logísticos, previsibilidade de fornecimento e planejamento industrial. Em um mercado que já reúne cerca de 900 mil pacientes em tratamento com derivados da planta, Ana Gabriela observa que a consolidação normativa cria um ambiente institucional mais estável para expansão.
"A TegraPharma possui atuação em diversos países e, neste momento, o Brasil se consolida como mercado estratégico, diante de sua base farmacêutica robusta e do avanço para um ambiente regulatório mais centralizado e previsível. Estamos preparados para esse novo ciclo, com foco na ampliação do acesso, inovação e desenvolvimento científico. Nosso plano de expansão prioriza parcerias estratégicas e ganho de escala operacional, posicionando a companhia para atender à crescente demanda global e ampliar a relevância do Brasil no cenário internacional da Cannabis medicinal", salienta Ana Gabriela.
Haja vista, o mercado de cannabis medicinal no Brasil pode atingir R$ 15 bilhões nos próximos anos, impulsionado pelo novo marco regulatório. No campo agrícola, análises apontam que o cultivo regulamentado pode apresentar rentabilidade superior a culturas tradicionais, com projeções de R$ 23 mil por hectare, valor estimado como até 11 vezes maior que o da soja em determinados cenários produtivos.
"A internalização produtiva tende a gerar impactos diretos em custos, margem operacional e previsibilidade de fornecimento. Com regras claras, torna-se viável estruturar investimentos em infraestrutura, tecnologia e rastreabilidade, deslocando o setor para uma lógica industrial madura. Além disso, quando conduzido sob protocolos técnicos e boas práticas produtivas, seja em cultivo protegido ou em ambiente controlado, o desenvolvimento da cadeia pode incorporar padrões mais eficientes de uso de recursos, gestão ambiental e sustentabilidade, conciliando escala produtiva e responsabilidade socioambiental", contextualiza.
Pesquisa como vetor de valorização
A regulamentação do cultivo para pesquisa científica adiciona componente estratégico à cadeia produtiva. Para a especialista, a geração de evidência clínica nacional e o desenvolvimento de formulações próprias podem elevar o valor agregado da indústria farmacêutica brasileira.
"A pesquisa regulada cria um ambiente seguro para inovação. No médio prazo, isso permite desenvolvimento tecnológico local e diferenciação competitiva. Mercados que consolidaram pesquisa e produção sob governança sanitária clara registraram aumento de investimentos e diversificação de portfólio", afirma Ana Gabriela.
Neste sentido, a advogada Layla Espeschit, especialista em acesso à cannabis medicinal, avalia que o conjunto normativo sinaliza amadurecimento institucional. "Segurança jurídica é variável central para investidores. Quando as regras são claras e integradas, o risco se torna mais mensurável. Isso altera a percepção de estabilidade do setor", reforça. Segundo ela, ambientes regulatórios consolidados tendem a atrair capital de longo prazo, voltado à construção de capacidade produtiva e governança.
Brasil no radar global
O avanço regulatório brasileiro ocorre em um contexto internacional de expansão do mercado legal de cannabis. Estimativas indicam que o mercado global pode crescer US$ 444,34 bilhões até 2030. Nos Estados Unidos, um dos mercados mais maduros, o setor legal de cannabis pode atingir US$ 76,39 bilhões até 2030.
Para Ana Gabriela, o Brasil inicia um ciclo de maturação. "A pesquisa conduzida dentro de um ambiente regulado cria segurança para inovar e atrair investimento qualificado. No médio prazo, isso se traduz em desenvolvimento tecnológico local e maior competitividade. Países que estruturaram pesquisa e produção sob uma governança sanitária clara registraram crescimento consistente de investimentos e ampliação de portfólio. Esse é o caminho para consolidar o setor de forma sustentável e posicioná-lo como indústria de relevância estratégica", observa.
Com base normativa mais definida, demanda crescente e potencial produtivo relevante, Ana Gabriela defende que a cannabis medicinal brasileira passa a integrar a agenda econômica sob uma perspectiva de escala, integração industrial e atração de capital no médio e longo prazo.




