Há comentários que envelhecem mal em minutos. Outros envelhecem mal em segundos. A fala do apresentador Ratinho sobre a deputada Erika Hilton conseguiu algo raro: ficou ultrapassada no momento em que foi dita.
Incomodado com a eleição da parlamentar do PSOL para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, Ratinho decidiu explicar ao público o que, na sua visão, define uma mulher. A definição veio em forma de checklist biológico: mulher, segundo ele, é quem menstrua, quem tem útero, quem engravida, quem faz exame de Papanicolau.
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É um argumento curioso — e não apenas por causa de Erika Hilton.
Porque, levado a sério, ele excluiria da categoria “mulher” milhões de brasileiras. Mulheres que fizeram histerectomia. Mulheres inférteis. Mulheres que não menstruam. Mulheres que não querem ter filhos. Mulheres que já passaram pela menopausa.
Ou seja: antes mesmo de atingir uma mulher trans, o raciocínio de Ratinho atinge mulheres cis.
Reduzir a condição feminina a um conjunto de órgãos reprodutivos não é uma opinião polêmica. É uma versão televisiva de um machismo antigo: aquele que define o valor das mulheres pela capacidade de reprodução.
E há um detalhe que torna o episódio ainda mais revelador.
Ratinho insistiu que “não tem nada contra Erika Hilton”. É uma frase comum em debates desse tipo. Ela costuma vir acompanhada de um “mas” que faz todo o trabalho pesado.
Porque, se o problema fosse realmente institucional — a composição de comissões ou a defesa dos direitos das mulheres — seria razoável esperar a mesma indignação em outras situações. Por exemplo: quando espaços dedicados às mulheres são dominados por homens.
Mas essa indignação seletiva raramente aparece.
O alvo da crítica não era a lógica institucional. Era a pessoa.
Erika Hilton não é apenas uma mulher trans. É também uma das parlamentares mais votadas do país, uma figura central na nova geração da política brasileira e uma presença constante no debate público. Criticá-la gera audiência. Questionar a sub-representação feminina em estruturas dominadas por homens, nem tanto.
No meio da polêmica, surgiu um gesto que diz mais sobre o momento do país do que qualquer discussão televisiva. O ativista Toni Reis — que conhece Ratinho desde os tempos em que ele ainda fazia televisão regional em Curitiba — decidiu escrever uma carta aberta ao apresentador.
Não foi uma carta de ataque. Foi quase o oposto.
Toni lembrou que o mundo mudou. Que direitos que pareciam impossíveis há décadas hoje fazem parte da vida democrática. E que a própria experiência humana é feita dessa tensão entre permanência e transformação — um debate que filósofos gregos como Heráclito e Parmênides travavam muito antes de a televisão existir.
É uma carta elegante e generosa. Talvez até otimista.
Mas ela também deixa implícita uma pergunta inevitável: se a sociedade mudou tanto desde os anos 1980, por que certos argumentos parecem ter ficado presos naquela década?
O problema da fala de Ratinho não é apenas o preconceito contra uma mulher trans. É algo mais profundo: a tentativa de definir quem pode ou não pode existir dentro de uma categoria humana básica.
Quando alguém diz que mulher precisa menstruar, engravidar e ter útero para ser mulher, não está defendendo as mulheres. Está apenas reduzindo metade da humanidade a um aparelho reprodutor.
E isso diz muito mais sobre quem fala do que sobre quem é alvo da fala.
Debate político é legítimo.
Discordar de uma parlamentar é legítimo.
Mas reduzir mulheres a um órgão é outra coisa.
No fim das contas, o episódio diz menos sobre Erika Hilton — que seguirá exercendo seu mandato — e mais sobre o tipo de mentalidade que ainda insiste em definir mulheres pelo corpo e não pela cidadania.
E talvez esse seja o verdadeiro retrato do caso.
Ratinho tentou “explicar” o que é ser mulher.
Acabou apenas explicando o que é machismo.




