O Congresso brasileiro é um lugar fascinante.
Ali, o tempo é relativo. Há pautas que caminham na velocidade de uma tartaruga sedada depois do almoço de domingo. Outras atravessam Brasília como um carro oficial com escolta e giroflex. Depende muito de quem será beneficiado.
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Se a pauta envolve trabalhador, escala 6×1, jornada exaustiva e gente que pega ônibus lotado antes do amanhecer, aí surgem imediatamente os guardiões da responsabilidade fiscal, os sacerdotes da cautela institucional e os monges contemplativos do “vamos debater melhor”.
Tudo precisa de audiência pública.
Tudo exige maturidade.
Tudo demanda tempo.
Muito tempo.
Agora, se o assunto envolve anistia, redução de pena ou qualquer tema ligado ao ecossistema político bolsonarista, aí o Parlamento brasileiro se transforma numa mistura de Fórmula 1 com Black Friday. Deputados aparecem correndo pelos corredores, discursos inflamados surgem instantaneamente e o senso de urgência nacional toma conta do ambiente. É quase bonito de ver.
Recentemente, mais de 170 deputados assinaram emendas para postergar por até dez anos mudanças relacionadas ao fim da escala 6×1. Entre os signatários, nomes conhecidos da oposição ligada ao PL e ao bolsonarismo apareceram em peso. A justificativa oficial é sempre elegante: prudência, responsabilidade econômica, impacto nos setores produtivos, necessidade de diálogo.
A deputada Júlia Zanatta, por exemplo, criticou a tentativa de acelerar a discussão e classificou a movimentação do governo como populista. O argumento é curioso. Porque, no Brasil, “populismo” parece ser uma palavra que só aparece quando pobre pode ganhar alguma coisa.
Quando o tema é endurecimento simbólico, guerra cultural ou defesa de aliados políticos, ninguém pede calma. Ninguém pede estudos mais profundos. Ninguém fala em amadurecimento institucional. O Parlamento vira Usain Bolt.
E talvez seja essa a parte mais interessante da política brasileira contemporânea: a velocidade com que certos setores conseguem distinguir o sofrimento legítimo da população do sofrimento que pode esperar mais uma década. O trabalhador da escala 6×1 sempre pode esperar.
Quem trabalha seis dias para descansar um, quem vive num país onde o deslocamento consome horas diárias, onde o burnout virou epidemia silenciosa e onde a vida pessoal cabe espremida entre o expediente e o cansaço… esse precisa compreender a complexidade do debate.
Mas outras pautas não precisam de tanta reflexão.
Para essas, há urgência.
Há mobilização.
Há coragem.
E há algo quase poético nisso tudo: muitos dos parlamentares que defendem que o brasileiro continue trabalhando seis dias por semana dificilmente suportariam um mês vivendo a rotina de quem pega ônibus às cinco da manhã, bate ponto em pé o dia inteiro e volta para casa sem tempo sequer de existir.
O mais curioso é que boa parte dessa mesma classe política construiu sua força justamente falando em nome do “povo comum”, do “cidadão trabalhador”, da “vida real”. Mas, quando a vida real bate à porta do plenário pedindo um pouco menos de exaustão, ela encontra um Congresso preocupado demais em frear a pressa. Porque a pressa, em Brasília, é seletiva.
Existe uma velocidade para salvar aliados.
Outra para proteger interesses.
E outra — bem mais lenta — para melhorar a vida de quem trabalha.
No fim, talvez a grande metáfora da política brasileira não seja a polarização, nem o embate ideológico, nem as guerras culturais infinitas das redes sociais. Talvez seja apenas um relógio.
Um relógio curioso, desregulado, quase cínico, que acelera furiosamente para algumas causas e parece parar completamente diante do caixa do supermercado, da escala do hospital, da cozinha do restaurante, da farmácia aberta no domingo ou do trabalhador que só queria um pouco mais de tempo para viver.
Porque, no Brasil, até a pressa tem lado.