Brasileiro gosta tanto de futebol que conseguiu transformar a memória em uma modalidade esportiva. E, como toda modalidade esportiva nacional, ela também sofre com arbitragem duvidosa.
Basta uma Copa do Mundo chegar para começar o ritual. Os bares enchem, as ruas ganham bandeirinhas verde-amarelas, os grupos de WhatsApp voltam a discutir escalações como se estivessem reunindo o Conselho de Segurança da ONU, e alguém inevitavelmente suspira:
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— Ah, se fosse a seleção de 2002…
Pronto. Começou.
A seleção de 2002 entra em campo mais uma vez. Ronaldo. Rivaldo. Ronaldinho. Cafu. Roberto Carlos. Marcos. Aquela seleção que, na memória nacional, joga melhor a cada ano que passa. Daqui a mais vinte anos, Ronaldo Fenômeno terá feito quinze gols naquela Copa, Cafu terá cruzado o Oceano Atlântico correndo pela lateral e Ronaldinho Gaúcho terá driblado metade do planeta antes de encobrir o goleiro inglês.
A memória brasileira é uma excelente editora de videotape. Ela corta os erros, remove os tropeços, apaga as críticas e deixa apenas os gols.
O curioso é que muita gente esquece que, antes de levantar a taça em Yokohama, aquela seleção também era criticada. Ronaldo vinha da convulsão de 1998, Felipão era contestado, Ronaldinho era um garoto e ninguém sabia exatamente o que aconteceria. O troféu veio. E o troféu resolveu tudo.
É uma característica curiosa do brasileiro. Nós não admiramos trajetórias; admiramos finais felizes. Não celebramos processos; celebramos fotografias. O sujeito pode ser brilhante durante quinze anos, mas, se não levantar a taça certa, entra para a categoria dos “quase”.
Zico sabe disso. Sócrates sabia disso. Careca sabe disso. Falcão sabe disso. A seleção de 1982 sabe disso melhor do que ninguém. Talvez tenha sido a melhor seleção que o Brasil já produziu. Jogava um futebol tão bonito que até hoje é citada em documentários, livros e mesas de bar. Mas perdeu. E perder, para nós, é um pecado que a história raramente perdoa.
Enquanto isso, a seleção atual vive uma situação curiosa. Talvez seja uma das gerações mais talentosas das últimas décadas. Mas carrega o crime imperdoável de ainda não ter vencido uma Copa do Mundo.
Veja Vinícius Júnior. Um dos melhores jogadores do planeta. Decisivo, veloz, criativo, campeão europeu, protagonista em um dos maiores clubes do mundo. Capaz de transformar uma partida comum em um pesadelo para qualquer defesa. Mas, para parte da torcida brasileira, ele ainda precisa apresentar documentos, preencher formulários e reconhecer firma em cartório para provar que é craque.
Veja Casemiro. Um dos maiores volantes de sua geração. Colecionador de títulos, protagonista durante anos no mais alto nível do futebol mundial. Ainda assim, não faltam análises que tratam qualquer volante aposentado como uma entidade mitológica. Gilberto Silva vira uma mistura de Busquets, Kanté e o próprio Beckenbauer no auge. Dunga passa a ser lembrado como se tivesse a saída de bola do Pirlo, a liderança do Cafu e a capacidade de marcação de três volantes ao mesmo tempo. E qualquer jogador que esteja em atividade parece sempre inferior àquele que existe apenas na lembrança.
A memória é uma fraude elegante. Ela escolhe seus melhores momentos. O presente não tem esse privilégio. O presente precisa conviver com erros, tropeços, derrotas e comentários indignados no X, no Instagram e no grupo da família.
Talvez seja por isso que tanta gente tenha dificuldade de reconhecer a grandeza enquanto ela acontece.
Neymar talvez seja o maior exemplo dessa síndrome nacional. Nenhum jogador brasileiro foi tão analisado, julgado, idolatrado e odiado ao mesmo tempo. Para uma geração inteira, ele se tornou “o jogador que não ganhou Copa”. Como se sua carreira pudesse ser reduzida a uma ausência no currículo. Como se o futebol fosse uma prova de matemática. Como se Messi não tivesse passado anos ouvindo exatamente as mesmas críticas antes de finalmente levantar sua taça no Catar.
O problema, no fundo, não está no futebol.
Está em nós.
Vivemos numa cultura que confunde valor com troféu. Que mede grandeza pela fotografia da comemoração. Que transforma campeões em semideuses e derrotados em notas de rodapé. Talvez por isso o Brasil produza tantas estátuas e tenha tanta dificuldade de lidar com seres humanos.
Porque estátuas não erram. Não tropeçam. Não perdem finais. Não decepcionam torcedores. Mas também não existem.
Os jogadores que admiramos hoje são pessoas reais. Cheias de falhas, limitações, dúvidas e derrotas. Exatamente como os craques que transformamos em lenda. A única diferença é que aqueles já receberam a autorização oficial da nostalgia.
Os atuais ainda estão aguardando o carimbo.
E o brasileiro adora um carimbo.
Principalmente quando ele vem dourado, tem formato de taça e permite que a gente finja, mais uma vez, que sempre soube quem eram os verdadeiros craques.