
Ele não consegue contar uma história inteira.
Mas consegue dizer o suficiente para não querer voltar.
“Escola não. Professora briga. Tampa a boca. Tampa o nariz.”
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A frase vem quebrada, como costuma ser com crianças que vivem dentro do próprio tempo. Mas o sentido chega inteiro, e pesado. Desde que voltou para casa com marcas no corpo, no fim de fevereiro, o menino de 12 anos, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA nível 3), passou a reagir à simples menção da escola com medo, crises e recusa.
A mãe percebeu primeiro no comportamento. Depois, nas palavras. E, por fim, no silêncio de quem deveria responder.
Um dia comum que deixou de ser
Era 25 de fevereiro quando o menino — aqui identificado pelas iniciais G.H. — voltou da escola municipal de educação especial onde estuda, em Curitiba. Veio no transporte escolar, como de costume. Mas não como sempre.
Estava agitado.
Tinha marcas no pescoço e no braço.
Caminhava com dificuldade.
A mãe fotografou. Pensou que poderia ser algo banal — o cinto de segurança do ônibus, talvez, algum movimento durante uma crise. Enviou as imagens à escola.
No dia seguinte, foi chamada. Houve registro em ata. E depois disso, nada.
Nenhuma explicação clara. Nenhum relato detalhado. Nenhuma resposta que fosse além do protocolo.
Quando o comportamento fala
Durante semanas, o caso parecia disperso, como tantos episódios que se perdem entre burocracias e rotinas institucionais. Até que veio o gatilho. Ao ser informada de que voltaria às aulas, a criança reagiu com intensidade incomum. Foi então que começou a repetir, do jeito que consegue:
“Professora briga. Tampa a boca. Tampa o nariz.”
A fala não é linear. Não precisa ser. Em crianças com TEA nível 3, comunicação não se mede pela gramática, mas pela insistência.
E ele insiste.
Desde então, recusa total de retorno à escola. Crises mais frequentes. Agressividade. Alterações comportamentais que não estavam ali da mesma forma antes.
Há laudo médico recomendando afastamento. Há acompanhamento neurológico. Há registros. E há uma pergunta que ninguém respondeu até agora.
O caso chega à polícia
No dia 30 de março, a mãe registrou boletim de ocorrência. A Polícia Civil do Paraná confirmou à reportagem que o caso é investigado como lesão corporal. Segundo a corporação, diligências estão em andamento para esclarecer a dinâmica dos fatos. Por envolver menor de idade, o procedimento corre sob sigilo.
Ou seja: o caso existe, formalmente. E não é tratado como irrelevante.
A resposta que não responde
Procurada, a Secretaria Municipal da Educação de Curitiba afirmou, em nota, que “tomou todas as providências cabíveis”, acompanha a situação e forneceu informações às autoridades. Também declarou repudiar qualquer forma de violência no ambiente escolar.
Não detalhou o ocorrido. Não explicou a ausência de comunicação imediata à família. Não esclareceu os limites do sigilo mencionado. Disse o necessário para cumprir o rito. Mas não o suficiente para esclarecer o caso.
O órgão que não falou
O Conselho Tutelar foi acionado e acompanha o caso, segundo a família. Até o fechamento desta reportagem, não se manifestou.
O que diz a lei — mesmo antes da conclusão
Para o advogado e especialista em direitos humanos Donizete Furlan, há obrigações legais claras em situações como essa. Segundo ele, qualquer suspeita de violência envolvendo criança exige:
- comunicação imediata à família
- registro formal do ocorrido
- acionamento da rede de proteção
Furlan também é direto sobre os limites da intervenção física. “Contenções só são admitidas em situações excepcionais, com risco iminente, de forma proporcional e sem causar dano. A eventual obstrução de vias respiratórias, se confirmada, ultrapassa qualquer limite legal.”
Mesmo sem conclusão definitiva, outro ponto já levanta questionamento jurídico. “O sigilo institucional não pode ser usado contra os responsáveis. A família tem direito à informação.”
Entre o que aconteceu e o que não foi dito
Há, neste caso, duas histórias correndo em paralelo. Uma tenta entender o que aconteceu dentro de uma sala de aula. A outra tenta entender por que ninguém consegue — ou quer — explicar.
Se houve agressão, é crime. Se não houve, há uma cadeia de falhas que também precisa ser explicada.
Entre uma hipótese e outra, existe uma criança que não quer voltar para a escola. E isso, por si só, já deveria bastar para que alguém dissesse mais do que “estamos investigando”.
O que fica
Há marcas que aparecem na pele. Outras aparecem no comportamento. E há aquelas que ficam no intervalo entre uma pergunta e uma resposta que nunca chega.
O menino não sabe narrar o que viveu com precisão. Mas sabe o suficiente para ter medo. E talvez seja isso que mais incomoda.
Porque, no fim, o silêncio também ensina. E o que ele tem ensinado, até agora, não deveria fazer parte de nenhuma escola.
