Mesmo depois de sete anos, a esposa do engenheiro Renato Brandão, que saiu de bicicleta e nunca mais voltou, ainda mantém as esperanças de encontrá-lo

Miriam olha para o piano, se lembrando do marido desaparecido – Foto: Ricardo Alcantara

O piano, no meio da sala do apartamento no bairro Ahú, em Curitiba, não é tocado há sete anos. O dono dele, e do coração da analista de sistemas Miriam Isabel Weiss Brandão, 51 anos, o engenheiro Renato Moreira Brandão, 61, saiu de casa no dia 13 de setembro de 2011, para um passeio de bicicleta, levando apenas a chave da casa e R$ 120. Nunca mais voltou. “Era um dia normal. Levantamos, nos arrumamos, tomamos café, nos despedimos dele com um pouco de pressa, deixei nossa filha no colégio e fui trabalhar”, entristece-se Miriam ao se lembrar do marido.

O engenheiro desaparecido há sete anos tinha na música um hobby e na engenharia civil uma profissão. Formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), trabalhava em casa, no mesmo apartamento em que conquistou fazendo contas e traçando linhas, em troca de metros quadrados. De lá, desenvolvia softwares na área de cálculo estrutural, e ajudava a encaminhar os rumos de duas empresas de que era sócio.

Os cálculos pareciam também o ajudar em outras áreas fora da engenharia. Marido carinhoso; pai atencioso; filho, e genro sempre presente; e músico talentosíssimo, Renato curiosamente tinha tempo para tudo e para todos. Cuidava dos pais e dos sogros sempre que precisavam; caminhava com a esposa quase todas as manhãs; ensinava as lições de casa para filha, Thais Weiss Brandão, 14 anos na época, 21 hoje em dia, quase todos os dias da semana; quase sempre estava consertando eletroeletrônicos dos vizinhos “por esporte”; e nunca deixava de tocar piano para esposa. “A falta que sentimos dele é imensa”, resume Miriam.

O desaparecimento

Thais foi a primeira a perceber e estranhar a ausência do pai, logo que chegou do colégio ao meio-dia. Preocupada, ela ligou para mãe perguntando por ele, que também estranhou. Miriam então entrou em contato com os amigos do marido e com familiares durante a tarde, tentando o localizar, e constatando que nenhum esteve com ele, começou o aperto no peito. “Achei estranho e a hora foi passando. Com isso começou a bater o desespero”, relembra.

O tempo foi passando, e já era quase noite quando a família tentou registrar o boletim de ocorrência do desaparecimento, mas foi informada erroneamente que deveria aguardar 24 horas. Dessa forma, eles iniciaram as buscas por conta própria. Percorreram hospitais, Instituto Médico Legal (IML), Fundação de Ação Social (FAS), parques e entraram em contato com rádio-táxis para distribuir a informação e fotos de Renato, na esperança de algum êxito, mas não receberam nenhuma resposta que indicasse o seu paradeiro. “Foi um desespero, não consegui dormi aquela noite. No outro dia sai cedo e andei durante horas pelos bairros da região pensando que o acharia caído em algum lugar machucado, mas nem isso”, diz Miriam.

A polícia iniciou as buscas no dia seguinte, mas com certa timidez. “Eles começaram a chamar todos da família aos poucos para tentar levantar detalhes, mas acho que demorou muito”, afirma. As investigações seguiram, mas enquanto a família sofria por falta de notícias, as polícias envolvidas nas investigações não se intendiam. “Todos queriam ajudar, mas escolhi o trabalho da DVC (Delegacia de Vigilância e Capturas) que pareciam mais preparados e dispostos”, lembra Miriam.

Cães farejadores que poderiam auxiliar nas buscas logo depois do desaparecimento só foram usados, a pedido da DVC, nove dias depois, mas até para um animal treinado, com faro aguçado era tarde, e o desespero da família prosseguiu. “O grande período de tempo, desde o desaparecimento, e a grande contaminação do ambiente, atrapalharam as buscas e o cão não conseguiu estabelecer o rastro deixado por Brandão”, explica Daniel Lorenzetto capitão do Grupo Operacional de Socorro Tático (Gost), do Corpo de Bombeiros.

Câmeras de segurança mostram Renato

Dias depois a família tem acesso aos arquivos de registros de câmeras de segurança de prédios vizinhos, que mostram a saída do engenheiro Renato, que saiu de bicicleta por volta das 10h. Até então, a família e a própria polícia acreditavam que Renato tinha saído para uma caminhada. “Só vimos ele com a bicicleta quando tivemos acesso às câmeras dos prédios vizinhos. Ele não costumava andar de bicicleta. Tanto que a bicicleta que ele usou no dia era uma antiga, que estava na casa dos pais dele. A bicicleta nova dele estava em casa. Por isso nem desconfiamos”, relata Miriam.

Nesse período, a bicicleta de 1974 é localizada na Estrada da Graciosa (PR-410, que liga Curitiba à Baía de Antonina). Ninguém sabe que é do engenheiro desaparecido, até que as imagens são divulgadas. “Foi o IAP [Instituto Ambiental do Paraná] que achou a bicicleta por ali e recolheu. Como não sabíamos que ele tinha saído de bicicleta e nem o IAP sabia de quem era a bicicleta, eles guardaram. Quando a gente divulgou que ele tinha saído de bicicleta, dez dias depois, e a gente mostrou as imagens da bicicleta, o IAP entrou em contato com a polícia, eles foram até lá e pegaram a bicicleta”, explica Miriam.

Várias linhas de investigações são apuradas e, entre pistas de que o engenheiro poderia estar vivendo como andarilho no litoral catarinense (ele teria sido visto em Piçarras e Barra Velha) e testemunhas que afirmaram ver o engenheiro em Maringá, no Noroeste do estado, as investigações emperram. A vida mais festiva ou a vida mais besta são postas pelo avesso com desaparecimento do pai exemplar, do marido atencioso e filho carinhoso. A dor e a espera vão moldando o dia a dia da família Brandão. Dos aparelhos domésticos dos vizinhos espalhados pela casa, que o engenheiro adorava arrumar de graça, ao café da manhã especialmente feito por ele e pela filha Thais, com direito a panqueca virada no ar, tudo se torna motivo de saudades e lágrimas. “Fico procurando um motivo, mas não acho. Às vezes eu me pergunto por que isso aconteceu conosco, mas não acho respostas. Ele não tinha inimigos. Só fazia o bem. Não bebia. Não fumava. Não encontro respostas”, lamenta Miriam.

Sete anos depois e sem nenhuma solução, Miriam e sua filha enfrentam outro problema. Passados anos do desaparecimento, os amigos e parentes retomaram suas rotinas, restando às duas a solidão da busca e o “fantasma” do desaparecimento do pai querido, do marido sorridente. “Vivo a solidão da busca ao lado da minha filha. Se toca o telefone, pode ser ele. A campainha. Um vulto na esquina, o morador de rua sentado na calçada, podem ser ele. À noite, um barulho na sala, é uma agonia constante” explica Miriam. Mas mesmo com essa agonia, a analista de sistema acredita que Renato está vivo e não desiste de rever o marido. Ela afirma que não passa um dia sequer sem pensar nele e mantem as buscas. “Já ouvi casos de gente que voltou oito ou dez anos depois, sem memória. E se for o caso dele?”, pergunta Miriam.

Ativismo e proposta de lei

No meio de tanta dor, Miriam decidiu arregaçar as mangas. Juntou-se a familiares de pessoas desaparecidas de todo o Brasil, e se mobilizaram pela internet pela causa dos desaparecidos. Juntos coletaram assinaturas para um projeto de lei de iniciativa popular que foi encaminhado ao Congresso Nacional, e tem como objetivo melhorar a estrutura de investigação de casos de pessoas desaparecidas.

Dentre as propostas do projeto de lei, estão a criação de delegacias especializadas em cidades com mais de 100 mil habitantes; a integração da troca de informações de pessoas desaparecidas em território nacional, com acesso a bancos de dados internacionais (da Interpol e do Sistema de Intercâmbio de Informações Sobre Segurança do Mercosul); e a desburocratização no rastreamento dos aparelhos celulares dos desaparecidos.

O projeto, que aguarda a designação de um relator na Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado (CSPCCO), na Câmara dos Deputados, também propõe a veiculação de informações sobre as pessoas desaparecidas em veículos de comunicação e a responsabilização criminal de quem passar informações falsas à polícia sobre desaparecidos. “Com essas medidas, seria possível diminuir o número de pessoas desaparecidas e aumentar o número de pessoas que são reencontradas. Imagine quantos casos ocorrem e não se chega à mídia”, avalia Miriam.

A analista de sistemas se tornou uma espécie de ativista desde que Renato desapareceu. Divulga informações sobre outros casos e luta pela ampliação da estrutura de investigação de desaparecimentos. Não desiste por nem um minuto de rever o marido. Ela não faz luto, nem pretende. Já incluiu na sua rotina de mãe e trabalhadora o expediente de “buscadora” profissional. Para Miriam, o marido que tinha uma inteligência acima da média e ouvido absoluto para música, ainda está por aí, talvez barbudo e sem memória por algum motivo. Para ela, as buscas pelo engenheiro de 1,67 de altura, filho do médico e músico Hélio Brandão e da pianista Ophélia Moreira Brandão, que e se dividia com grande desenvoltura entre a profissão, a música, a paixão por antiguidades e a família que tanto amava, nunca cessarão. Volta e meia tira panos dos rostos de moradores de rua que estão dormindo para conferir se aquele não é seu marido. Mantêm-se forte e com nervos de aço à espera do marido que saiu num passeio de bicicleta e ainda não voltou.


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